Tino Sonso sempre foi um bom ouvinte, talvez por isso nunca lhe faltassem novidades, mas essa que ouvia agora era coisa de outro mundo, melhor dizendo, coisa de outros tempos. Ele jamais poderia imaginar que o futuro reservasse surpresas desagradáveis, era um otimista inveterado e sempre que se punha a pensar no porvir, imaginava a ausência de fome, de doenças, de guerras, enfim, o futuro para ele sempre era melhor que o presente. Essa história, portanto era demais, e se não tivesse vindo da boca de seu amigo Bepi Bipolar, a quem dedicava especial atenção e a mais absoluta confiança, não acreditaria.
Os dois amigos estavam cabisbaixos, mas a curiosidade de Tino Sonso era maior que a tristeza que estava sentindo e então estimulou Bepi a contar mais sobre o que tinha visto e ouvido quando estivera no futuro.
- É estranho Tino, como já lhe disse fiquei pouco tempo no futuro, sentia-me mal, mas não obstante, armazenei em meu cérebro muitas informações e imagens. Aquelas pessoas de andar lento inspiravam-me ao mesmo tempo carinho e piedade, admiração e surpresa. Não tenho absoluta certeza, mas estive duzentos anos à frente de nosso tempo, em 2210. A população mundial ao invés de aumentar regrediu em mais de meio milhão de pessoas, a média de vida caiu para menos de cinquenta anos, especialmente em virtude da degeneração de alguns órgãos, em particular os rins, devido ao consumo de pouca água. O sol arde, queima e talvez por isso a pele dos nossos descendentes seja amarronzada, grossa e enrugada. Depois, veja você, alimentar-se à base de pílulas, que graça tem? Não é de admirar que a estatura humana também tenha diminuído ao longo desses dois séculos.
- Ah! as florestas tropicais se acabaram. Esses locais, como a Amazônia, por exemplo, viraram desertos, os poucos capões de matos existentes resumem-se em amontoados de arbustos retorcidos, espécie de cerrado.
- Animais? Nem um gato ou cachorro. Estranho, mas em nenhum momento os meus amigos do futuro se referiram a qualquer animal! E ainda mais estranho, eles não culparam as gerações anteriores por aquele estado de coisas!
Fez-se novamente silêncio. Longo silêncio, mas desta feita, surpreendentemente, foi Tino Sonso quem se pôs a falar:
- Sabe o pior Bepi? Não podemos confiar essa histórica a mais ninguém. Quem acreditaria em nós? Diriam que você é louco e eu bobo. Você louco por inventar e eu bobo por acreditar. Ora, ora, que situação! O nosso planeta corre sério risco, nós sabemos que o futuro não é animador e não podemos chamar os governos, as rádios, a televisão, o povo, e dizermos claramente e em bom tom tudo o que está por suceder.
Realmente nunca, jamais, os amigos retornaram a esse assunto, talvez por isso ninguém também tenha entendido a razão de Bepi Bipolar e Tino Sonso passarem a maior parte do tempo plantando árvores, recolhendo sacos plásticos, limpando entulhos de bueiros, falando em preservação das águas e do solo.