Crônica em retalhos (3) 31/07/2010
Parquímetro: entrando no carro deparei-me com a notificação do parquímetro. Revoltei-me e somente não fui deselegante com a funcionária porque me lembrei de quando a minha avó brincava com as crianças zangadas, dizendo “Ta bravo? Tire a calça e pise em cima”. Sorri da lembrança e reclamei sim, mas amistosamente da “injusta” multa. No entanto a moça mostrou-me que eu estava errado: tinha estacionado na vaga 8 e digitado o tempo na vaga 7. O erro tinha sido meu.
Estresse: Vai ver que eu estava meio estressado e não fiz a marcação direito. A pressa, a ansiedade, o cansaço são fatores muito presentes nos erros que cometemos no trânsito. Puxa! Se tivesse xingado a moça, uma menina que enfrenta sol e chuva na defesa do sagrado pão de cada dia, teria cometido uma baita injustiça. Ao pensar que existem profissões e profissionais tão vulneráveis aos nossos estresses prometi, a mim mesmo, cuidar bem antes de desacatar quaisquer trabalhadores.
Paraquedistas: Campanha política em franco aquecimento, muitos carros já trafegam ostentando adesivos de candidatos, alguns de Dourados, outros de fora. Em quem votar? Ora, ora, numa democracia representativa a resposta mais evidente seria: “votarei naquele que represente à altura os meus ideais de sociedade”.
Parede-meia: Nessas circunstâncias é que em alguns candidatos de Dourados eu votaria mesmo que morassem em qualquer outro canto do estado, em compensação não votaria em outros mesmo que morássemos em parede-meia. Por outro lado, embora não se possa generalizar, os candidatos de fora chegam até nós por possuírem mais dinheiro para a campanha e não necessariamente por terem mais capacidade ou algum outro predicado. Para melhorarmos a representatividade seria necessário o estabelecimento de uma profunda reforma política que incluísse em seu bojo o voto distrital ou, ao menos, o distrital misto.
Partido é parte: Quando se fala em partido político fala-se na organização de uma parte da sociedade, que tem convicções semelhantes, para a disputa do poder. O óbvio é que alcançando o poder esse partido coloque em prática aquilo que consta em seu programa. No Brasil, entretanto, desde os tempos imperiais, essa conduta não se verifica. Tínhamos dois partidos, o Conservador (Saquaremas) e o Liberal (Luzias) e já se dizia naqueles tempos que “nada é mais conservador que um liberal no poder”.
Justiça Eleitoral: Atualmente com algumas dezenas de partidos inscritos na Justiça Eleitoral – já nem sei mais o número – estabeleceu-se o caos. Mas não pelo número de partidos em si, mas pela dubiedade das Leis Eleitorais e principalmente pela inapetência da Justiça Eleitoral em estabelecer critérios gerais. Inapetência, ou seja, falta de apetite, e não incapacidade, pois capacidade a Justiça Eleitoral tem e às vezes até exorbita. Para determinar o número de vereadores segundo os eleitores de cada município, por exemplo, a Justiça Eleitoral foi capaz, mas para impedir a infidelidade partidária não é.
Código de uso e ocupação do solo: é uma lei municipal que, como diz o próprio nome, disciplina o uso e ocupação do solo dos municípios brasileiros. Quanto mais aperfeiçoada essa Lei, mais bonita a paisagem urbana, melhor o tráfego e mais segura a mobilidade humana. Em Dourados, além desse Código de Posturas existe um Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente – COMDAM – que pode autorizar ou não a execução de obras. O desrespeito ao Código e ao COMDAM significa o estabelecimento do caos urbano.
Computador de bordo: Com uso de computadores os aviões já fazem boa parte de seus percursos sem a intervenção dos pilotos. Carros seguem o mesmo progresso, dotados de GPS (Global Positioning System ou, Sistema de Posicionamento Global, em bom português), bem programados conduzem-nos aos endereços mais difíceis. Mas enquanto não podemos nos utilizar dessa tecnologia padecemos para localizar endereços em Dourados e em boa parte das cidades brasileiras.
Nomes de ruas: Consultei uma verdadeira enciclopédia ambulante, o meu amigo Sultan Rasslan, que me informou: a avenida Marcelino Pires era Avenida Brasil; Weimar G. Torres, Rio Grande do Sul; Teixeira Alves, Paraná; Melvin Jones, Pará; João Rosa Goes, Sergipe; João Candido Câmara, Minas Gerais; Presidente Vargas, Pernambuco; Nelson de Araujo, Maranhão.
E tem mais: Se a memória não me falhar, foi em 1978, por iniciativa do então vereador Roberto Djalma Barros, que a Câmara de Dourados aprovou a mudança do nome da rua Espírito Santo para Toshinobu Katayama e da Bahia, para Hayel Bon Faker. Não contesto as justas as homenagens, no entanto, passados mais de trinta anos as denominações antigas ainda são usadas. Da mesma forma as ruas do Jardim Água Boa, embora recebam nomes de próceres douradenses, ainda são identificadas com a letra W seguida de numeração 1,2, etc., Da mesma forma, no Jardim Itália, ou BNH 3º Plano as ruas ainda são identificadas por Projeta 1,2, etc., no Parque Alvorada R1,2, etc.
Difícil de achar e de guardar: O modelo usado em Dourados, de designarmos ruas homenageando os nossos antepassados é elogiável, no entanto torna-se difícil tanto a localização quanto a memorização desses nomes
Uma sugestão: Um projeto digno de uma Cidade Educadora, que Dourados continua sendo, seria dar a cada bairro a designação de uma letra do alfabeto e a cada rua um número, seguido do nome do homenageado. No embalo dessa idéia poder-se-ia aproveitar para corrigir a numeração das casas. Esse projeto, embora caro e que depende de planejamento cuidadoso facilitaria a mobilidade urbana, o trabalho dos correios, farmácias e entregadores em geral.
Experiência: Existem casos em que ao encontrarmos uma pessoa, pela primeira vez, temos a impressão de que já é velha conhecida. Simpatizamo-nos imediatamente. Mas existem também situações inversas, sentimos antipatia imediata em relação a novos conhecidos. Da mesma forma, em nosso convívio no trabalho, na escola, no esporte, na própria família, temos mais afinidades com uns que com outros. Experimente o caro leitor inverter esse quadro. Tome uma pessoa pela qual tenha verdadeira aversão e comece a tratá-la de modo diferenciado. Sorria, diga-lhe uma palavra amiga, elogie uma roupa, uma idéia ou um seu comportamento. Sempre procurando encontrar algo de positivo nesse seu eleito, repita essa experiência por um mês e depois me diga o que aconteceu.