Crônica em retalhos (4) 6/08/2010
2 bujões em 6 anos: indiscreto, perguntei à minha parenta quantos bujões de gás havia gasto em seus bem sucedidos seis anos de casamento. A resposta de que já havia instalado o segundo bujão não me surpreendeu. Os tempos atuais mudaram os hábitos familiares. Marido e mulher ao saírem do trabalho marcam encontro no restaurante X ou Y para o almoço. Aí, além da refeição podem conversar alguns minutos. À noite um lanche.
Variedade e qualidade: Outra opção para família de trabalhadores em nossos dias são as marmitas. Uma pessoa da família passa pelo fornecedor, pega a marmita e a partilha em casa. Botando na ponta do lápis, ou melhor, nos algarismos da calculadora, para quem trabalha fora “comer de marmita” como se costuma dizer, acaba saindo mais barato que ir às compras e manter cozinheira.
Tempos de mudanças rápidas: vivemos em um período de mudanças incrivelmente rápidas. Minha geração, por exemplo, viu a passagem do carro de bois para a jardineira, da jardineira para os ônibus, dos ônibus comuns para os leitos e desses para os aviões que ligam esse nosso Brasil de Norte a Sul. Nossos avós e pais tinham que rachar a lenha para os fogões, quando chegou o gás foi um alívio. Agora, dois bujões em seis anos.
Mudanças e conservadorismo: Não obstante essas mudanças que assistimos o conservadorismo ainda vigora. Isso é natural porque a infraestrutura (relações materiais de produção) modifica-se antes da superestrutura (idéias, costumes e instituições). Veja-se, por exemplo, o caso da Justiça.
A Justiça e a ordem: A Justiça foi constituída para manter a Ordem e o faz com relativa eficiência. Mas, que Ordem a Justiça mantêm? Ora, a Ordem estabelecida em Leis que são elaboradas pela elite dominante e em seu benefício. A Justiça, portanto é de certa forma a responsável pela “perpetuação” do status quo. Funciona como reprodutora da ordem vigente.
Iniciativa positiva: Em 2008, por iniciativa da vereadora Margarida Gaigher a Câmara Municipal de Dourados instituiu o prêmio Ildefonso Ribeiro de Literatura. Nesse ano, por iniciativa dos vereadores Délia Razuk e José Carlos Cimatti a Câmara, pela primeira vez, em sessão solene realizada no Teatro Municipal, outorgou os troféus alusivos a esse prêmio, no dia 12 de agosto, aos professores Lori Alice Gressller e José Pereira Lins.
Prêmios merecidos: lembro-me de uma citação mais ou menos assim “quem merece uma estátua geralmente não faz conta de tê-la”. Se concordar com essa frase significa sabedoria, estou longe de tê-la conseguido, pois penso que as homenagens oxigenam o cérebro e levam seiva aos órgãos vitais de nosso organismo. Foi muito bonito presenciar a solenidade, sentir um clima virtuoso e ouvir tanto os discursos de homenagem quanto os discursos de agradecimento proferidos pela professora Lori e professor Lins, citando Camões e Ildefonso Ribeiro de memória.
Digno de uma Cidade Educadora: A Câmara, a Academia Douradense de Letras, o Grupo Arandu com apoio da Funced estão de parabéns pela promoção do “1° Festival do Livro, Leitura e Literatura Regional na Grande Dourados”. Mais de 700 crianças e adolescentes participaram do evento que culminou no dia 12/08/2010, com a entrega dos prêmios aos já mencionados literatos douradenses, os professores Lori Alice Gressler e José Pereira Lins.
Noticiar o bom: Ressaltar as boas obras, destacar boas notícias, elogiar as ações dignas de elogio deveria ser um dever dos meios de comunicação. Noticiar crimes e calamidades também é dever, no entanto ficarmos restritos às desgraças não é de bom tom. Da mesma forma que em família, quando se fala apenas de crimes, roubos e mortes drásticas, cria-se um clima de pessimismo e decadência, também em uma cidade quando os meios de comunicação enfocam sobremaneira os acontecimentos negativos o inconsciente coletivo agrega valores pessimistas.
Racismo: Se um jogador de futebol quebrar a perna de um adversário recebe pena menor do que dirigir ofensas racistas a um colega de trabalho. O futebol tem condenado o racismo com muito rigor. Isso é extremamente salutar, pois hoje o conceito que temos é de que existe uma única raça, a humana, subdividida em etnias.
Antonil Andreoni: foi um jesuíta italiano nascido em 1649 e falecido no Brasil em 1716. Escreveu “Cultura e Opulência do Brasil” em 1710 e embora não fosse contrario a escravidão reconhecia a importância do trabalho dos Negros no Brasil.
Serviço de branco: Expressões como “serviço de branco” além de serem discriminatórias e racistas são também completamente descabidas por não expressarem a verdade. Os Negros, dizia Antonil “são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente”. (ANTONIL, 1982, p.89).
O habito não identifica o monge: Quando um homem público deixa escapar uma expressão como “serviço de branco”, em contraposição ao “serviço de negro” não quer dizer exatamente que ele seja racista. Vejo também muita gente dizer “denegrir a imagem” sem imaginar que esteja usando uma expressão racista, mas se você denigre, quer dizer torna a imagem negra, está tentando dizer que a imagem branca é boa e a negra é ruim. Portanto, o recomendável é que os homens públicos aprendessem aquilo que é politicamente correto para evitar a perpetuação de expressões politicamente incorretas.
Reflexão: Vasculho em minha memória e não me lembro de ninguém que tenha encampado qualquer das minhas idéias que não prosperaram. E não é o caso de dizer que “filho feio não tem pai”, pois uma idéia pode ser boa e não prosperar por várias outras razões.