Sob o título “um entusiasmado jovem tucano” escrevi ontem uma crônica na qual defendo que a ideologia dominante atinge os jovens de tal forma que os fazem defender valores contrários aos seus próprios interesses de classe.
Ao responder aos e-mails recebidos em relação às crônicas que publico, deparei-me com o de um jovem eleitor de Marina Silva que ficou sem opções para votar no segundo turno. Como em muitas eleições, principalmente na época de minha juventude eu olhava para a cédula e ficava agoniado com a falta de opções, compreendo a situação aflitiva de muitos eleitores na situação dele, por isso resolvi responder-lhe com nova crônica, guardando evidentemente a sua identidade e adjetivando-o apenas, mas não em desmerecimento, por um “jovem sem opções”.
Ao responder ao jovem disse-lhe que a sua opção por Marina, alicerçada, como me disse, nas propostas da candidata, foi uma decisão madura. Marina, embora derrotada, deu uma grande contribuição ao debate que se travou antes do primeiro turno, expôs projetos, abriu novos caminhos. A derrota de Marina não significa a derrota de suas ideias e ideais. Ela, assim como eu, assim como tantos outros, teve uma derrota eleitoral, não uma derrota política.
Quanto a Dilma e Serra - os que passaram para o segundo turno - penso que ambos estejam preparados para governar o Brasil. Serra com um currículo um pouco mais extenso em termos de experiência em cargos eletivos, Dilma, no entanto passou também por experiências extremamente enriquecedoras, tanto na sua resistência à Ditadura Militar quanto como Secretária de governo no Rio Grande do Sul, Ministra das Minas e Energia e Ministra da Casa Civil.
Penso, portanto que a decisão não se dará em termos pessoais, mas sim pelo que os dois candidatos representam e anunciam para a sociedade, não só pelo que apresentam nos debates e propagandas, mas pelos seus respectivos passados, pelas suas filiações partidárias e pelo arco de alianças que fizeram.
Os dois projetos são bem distintos: Num eventual governo Dilma poderemos esperar:
O fortalecimento do mercado interno, com incentivo governamental para o fortalecimento de nossa infraestrutura, especialmente para as obras de saneamento básico, geração de energia, construção de estradas, ferrovias e portos para viabilizar o transporte fluvial e marítimo e, por via de consequência, a geração de empregos formais para os brasileiros. Como esse progresso econômico não pode estar desvinculado do desenvolvimento científico e social, fica explicado o porquê do governo Lula ter melhorado sensivelmente o ensino fundamental e médio e ter fortalecido e ampliado a rede de ensino superior, ações essas que Dilma deve continuar.
Em termos de política externa o eventual governo Dilma continuará defendendo a nossa independência ante o FMI e em relação às potências econômicas. Significa dizer que os olhos de nossos embaixadores estarão voltados sim para a manutenção dos laços com os Estados Unidos e Comunidade Européia, mas também, e principalmente, continuarão a política de aproximação comercial com o gigantesco Oriente, com a Africa e com a América Latina, especialmente com os países integrantes do Mercosul.
Quanto a um eventual governo Serra o que temos a considerar principalmente é a concepção que o PSDB e o DEM fazem daquilo que se convencionou chamar "estado mínimo", ou seja, a pequena ou nenhuma intervenção do Estado na economia do país. Nessa concepção neoliberal de Estado mínimo a iniciativa privada torna-se a grande vedete. Em consequência, ao invés da expansão do ensino público, gratuito e de qualidade teríamos a proliferação das Universidades particulares. As privatizações voltariam à pauta e empresas sólidas como a Petrobrás, Banco do Brasil e tantas outras, poderiam ser colocadas à venda como foi o caso do nosso sistema de telefonia e distribuição de energia elétrica. Além evidentemente da concessão das nossas estradas federais para firmas particulares que fariam florescer por todo o Brasil os pedágios que tanto indignam os paulistas.
Em relação à política externa não poderemos esperar de Serra outra coisa que não o Estado de dependência, tão conhecido por Fernando Henrique Cardoso, que por sua vez aprendeu com Cameron. Este pesquisador da Ford nos anos 70 defendia em suma que os países periféricos deveriam satisfazer-se e até torcer pelos países desenvolvidos para que se desenvolvessem cada vez mais rapidamente e dessa forma eles usufruíssem das tecnologias substituídas por novas nos países de primeiro mundo. Seríamos, sob essa ótica, eternos dependentes.
Restaria ainda falar sobre outros temas, mas o espaço limitado de uma crônica me obriga a deixá-los para outras oportunidades.