Quando fui Secretário de Governo na gestão Tetila, fazia questão de receber as diárias que utilizava ao ir à Brasília, mas quando acompanhava o prefeito, o mais comum era ir sem diárias. Tetila pagava as contas. O almoço era no bandejão da Câmara e o jantar em restaurantes populares. Quando ia sozinho, eu ficava em hotel. Quando acompanhava Tetila ficava no apartamento funcional do deputado João Grandão, que não tinha nenhuma mordomia, ao contrário, era pequeno e eu me sentia sempre muito constrangido em incomodar
Cansei de dizer ao Tetila que aquilo que ele fazia era a maior besteira. Estávamos em Brasília para o bem do serviço público e tínhamos o direito de comer e dormir desfrutando do mesmo padrão que tínhamos em nossas casas.
Tetila sorria, não dizia nem sim nem não e era sempre a mesma ladainha. Viagens corridas, agenda lotada, comida de bandejão e que me desculpe o João Grandão, mas o apartamento funcional dele ficava apertado demais quando Tetila e eu dormíamos lá. Eu insistia que não era justo trabalharmos tanto e passarmos tão mal.
Lembro-me de ter ficado hospedado em hotel com o prefeito Tetila uma única vez. Era para eu ir à Brasília sozinho e uma das minhas tarefas era me reunir com um dirigente do UNICEF/ONU para tratarmos sobre a mortalidade infantil indígena que àquela época estava ocorrendo em Dourados. Como a agenda era pesada para um secretário, dependia da autoridade do prefeito, Tetila acabou indo também e como eu já havia reservado o hotel ele se obrigou a alojar-se comigo. E adivinhe o leitor onde conseguimos a audiência com o representante do UNICEF? Exatamente durante o café da manhã no hotel onde estávamos. Era a única hora que ele tinha disponível. Dessa audiência resultou uma vinda dele à Dourados, a doação de filtros para os índios e, mais que isso, a força que nos deu, colocando o peso do UNICEF/ONU nos Ministérios onde fomos posteriormente, foi fundamental para que a FUNASA estendesse a rede de água encanada em praticamente toda a reserva indígena Francisco Horta de Dourados.
Com esse trunfo, pensei que Tetila fosse mudar a sua conduta, mas não, ao invés disso, baixou em 25% a sua própria diária. Talvez fosse para servir de exemplo, talvez para satisfazer a sua verdadeira obsessão em administrar o patrimônio público com dedicação franciscana.
Teria muitos outros exemplos de atitudes desse purismo que Tetila passava ao seu primeiro escalão, mas deixa pra lá. Estou contando isso, porque li, por volta de 20 horas do dia 8 de novembro de 2010 a notícia dando conta de que os direitos políticos de Tetila foram cassados e, ainda por cima, ele terá que pagar uma multa de 100 vezes o valor de seu último salário.
Sabe o leitor o motivo pelo qual Tetila foi condenado? Porque em 2001 rompeu o contrato com a firma que prestava serviço de limpeza pública para o município e contratou no seu lugar uma cooperativa para fazer esse serviço. Pretendendo economizar recursos com a limpeza pública feriu a Lei. E nós sabemos que a Lei é dura, mas é a Lei. (Dura Lex, sede Lex). Nada adiantou ter cumprido decisão judicial em 2003 e reintegrado a firma que dispensara.
Tetila pode recorrer, mas sinceramente, se eu fosse ele recorria apenas da multa e deixaria o mandato. Da multa porque sendo um pão-duro, que não desfrutava sequer de um bom jantar em Brasília, duvido que ele tenha juntado o valor absurdo de 100 vezes o último salário de prefeito. Se ele tivesse guardado o salário dos oito anos (96 meses) em que administrou Dourados, ainda assim faltariam quatro salários (a não ser que ele recebesse 13º). Quanto ao mandato, bem, reconsidero minha opinião em respeito à vontade do povo. Não se pode desistir, mas cá entre nós, não dá vontade de largar tudo nas mãos daqueles que se locupletam com 10, 20, 30% ou com dois milhões por mês de repasse como afirmou Ari Rigo?.
Sei não, mas pelo andar da carruagem, ainda acham jeito de pegar mais gente. “Tropa de Elite / Osso duro de roer / Pega um pega geral / Também vai pegar você”. E eu, que estava até me animando com a possibilidade de termos nova eleição para prefeito em Dourados, acho que vou cantar com Raul Seixas: “Mamãe eu não quero ser prefeito / pode ser que eu seja eleito / e alguém vai querer me assassinar...”