Em agradecimento à Dinaci, Jovina, Lelian, Zonir, Adroaldo, Elias, Tetila, Ten. Pedro e Paschoalique
Tino Sonso estava atônito diante daquela escultura. Na verdade não era escultura, era o seu inseparável amigo Bepi, paralisado como que a brincar de estátua. Há quanto tempo ele estaria aí, mumificado, não tinha idéia, mas Tino não perdia a esperança de trazê-lo de volta ao normal, nem que para tanto tivesse que perder o sono, socar a mesa ou derramar uma lágrima. Não podia admitir que o amigo permanecesse naquele estado, semelhante a uma estátua de cera.
Não sabemos se Tino conseguira tal façanha, mas pelo menos podemos esclarecer ao leitor duas questões que se completam: o próprio sumiço de Bepi da mídia nos últimos tempos e o motivo desse sumiço.
Óbvio está que Bepi, essa figura extremamente curiosa, agindo ora com incrível e apurado senso, ora beirando a estultice, estava lá, mumificado, feito a estátua do ervateiro em lugar ermo, e, portanto, sumido do mapa. Vamos à causa desse sumiço, dessa sua mumificação.
Chega a ser bizarro, ou ao menos muita presunção de Bepi, mas ele estava cansado de enxergar bem,. Enxergar bem no sentido de que sabia entender a conjuntura, sabia ler o mundo em que vivia. Enxergar bem, contraditoriamente, ao invés de fazê-lo feliz – por ser capaz de ter opinião própria, por saber entender o que estava por trás de uma notícia capciosa, ou de um discurso demagógico - tornava-o sofredor – porque de nada lhe adiantava essa compreensão se era partilhada por tão poucos.
Vejam a estultice de Bepi: queria um pouco de escuro, na ilusão de que descansando os olhos descansaria também a mente atormentada por tantas desilusões. Na verdade estava enfezado com tudo e com todos. A crença, ele já entendia bem isso, é coisa que se perde aos poucos, com os anos. Mas somente os que passavam dos oitenta é que, segundo ele, tinham o direito de se desiludirem, afinal nem precisavam mais votar, jejuar, enfrentar filas. Mas ele, ainda novo, não se conformava.
Impressionante como as coisas lhe pareciam óbvias, mas nada adiantava, pois não as conseguia compartilhar. Estranha contradição essa, compreender o mundo e não compartilhar essa compreensão. Talvez lhe faltasse didática, talvez simpatia para se fazer ouvir. Quem sabe? Pode ser que esse sentimento fosse maluquice? Estaria ficando doido igual a esses que andam pelas ruas falando coisas ininteligíveis?
Ora, mas de repente lhe pareceu tudo muito fácil. Lá estava o interruptor na parede. Bastava-lhe dois passos, o estender da mão, um toque de dedo.
Bastava apertar o interruptor, mas tinha uma criança e a criança tinha medo do escuro, então recuou. Ora, ora, do escuro? Justamente, medo do escuro, quando deveria ter medo dos pedófilos, pobres seres! Deveria ter medo da fome, desgraçado sistema! Mas não, ela, a criança, tinha medo do escuro, simplesmente. Em respeito ao medo daquela criança deixou a luz acessa e ele com a sensação de que via as coisas com impressionante clareza.
Esquecida a criança, tudo lhe parecia novamente fácil, bastava apertar o interruptor. Mas tinha um velho e o velho que mal enxergava tinha medo do escuro, de tropeçar no tapete, de quebrar a louça da cristaleira. Medo do escuro, quando deveria ter medo da indiferença e dos maus-tratos. E a luz permaneceu acessa em respeito ao medo do velho pelo escuro e Bepi continuou enxergando com clareza.
Passado mais uma vez o sentimento de respeito insistiu em apagar a luz, fechar os olhos, fazer dormir a mente inquieta, mas tinha um professor. Então achou que não adiantaria apagar a luz, pois o professor, segundo muitas vezes lhe disseram, é uma chama que ilumina caminhos. E Bepi continuou enxergando com clareza.
Tentou dormir, mas nem fechar os olhos conseguiu. As pálpebras não lhe obedeciam. Insistiu em apagar a luz, mas tinha o político e o político muito mais que a criança, que o velho e o professor, tinha medo do escuro. Muito medo do escuro. Em respeito ao político Bepi mais uma vez recuou e não apagou a luz.
Sempre em respeito a alguém Bepi Bipolar desistiu de apagar a luz e, ao invés disso, saiu pelos campos à procura do escuro, mas quando teve a impressão de encontrá-lo enfim, desabou um temporal. Os relâmpagos traziam fachos de luz que iluminavam as árvores, as cercas e as gotas de chuva que lhe pareciam lágrimas do céu em pranto por seus desencantos. De qualquer forma, mesmo que iluminado somente pelos relâmpagos, o caminho era-lhe claro.
Então Bepi Bipolar desejou ser poeta, mas logo desistiu por lembrar-se de Fernando Pessoa que já ensinara: “só aos poetas e filósofos é dado não ter ilusões”. E então, por não ter ilusões, ao desejar ser poeta, Bepi reconheceu-se poeta. Compreendeu que subjacente à candura da poesia esconde-se a realidade de um “José sem cavalo preto que fuja à galope” (Drummond) Para onde? E, então, aturdido, untou-se com formol, mumificou-se para não ir mais a lugar nenhum e para não enxergar mais nada.