Secular aprendizado: o homem primitivo, notou que as crianças alimentavam-se nos seios de suas mães e os bezerros nos tetos das vacas. Observou que se o leite gerado pelas mães fosse abundante os seios inchavam e era necessário esgotá-los. Da mesma forma notou que acontecia o mesmo com os úberes das vacas. Então, até não inventarem os aparelhos modernos para retirar o leite excedente e depositar nos bancos de leite, os homens, para aliviar as suas respectivas mulheres, sugavam-lhe os seios e cuspiam o leite que sobrava.
Articulação do pensamento: Ora, se o leite da mãe alimentava as crias e o leite das vacas era mais suculento, porque não mamar nas vacas para alimentar-se? Dessa articulação do pensamento à domesticação das vacas foi um processo rápido. As vacas depois de algumas indecisões demonstradas por coices e chifradas acabaram se convencendo que o esgotamento do leite aliviava-lhe a febre e permitiram a domesticação.
Aprendizado continuado: Séculos e séculos se passaram até que os homens compreenderam todo o processo de formação do leite pela vaca. Perceberam que quanto mais e melhor alimentassem a vaca mais leite ela daria. E eles, os homens, avançaram tanto nesse aprendizado que hoje uma vaca boa poderia alimentar tranquilamente quinze, ao invés de um único bezerro.
Via de mão dupla: Minha avó dizia que a galinha punha os ovos pelo bico. Me ensinaram também que o arrozal gosta de ser pisado para produzir bem. Só entendi essas coisas quando me veio o senso. Claro que quanto mais milho come, mais ovo bota, claro que se o rizicultor não estiver pisando, ou seja, cuidando do arrozal, se faltar-lhe água, por exemplo, a produção será pequena. É a mesma coisa de dizer que o porco engorda com os olhos do dono. São vias de mão dupla. Também a vaca dará tanto mais leite quanto melhor for a sua alimentação.
Cidades e vacas: Com o tempo os homens foram percebendo que mamar nas cidades era mais rentoso que mamar nas vacas, mal comparando cidades com vacas leiteiras, podemos dizer que há cidades com grandes úberes e há cidades com úberes minguados. Isso não era estranho nos tempos bíblicos quando o povo hebreu peregrinou à busca da Canaã, terra onde jorrava o leite e o mel.
Dourados: Essa abençoada terra de Antonio João e do Ervateiro não haveria de ser diferente. Possue úbere descomunal e tetos generosos que alimentaram várias gerações e hoje alimenta praticamente 200 mil pessoas. Mas quem alimenta Dourados?
Uma constatação: trabalhadores esforçam-se dia e noite para alimentar nossa cidade construindo edifícios, atendendo atrás de balcões comerciais, trabalhando nas metalúrgicas, nas escolas, nas ruas esburacadas. Homens e mulheres, trabalhando, pagando os seus impostos são os alimentadores da urbe. Uma cidade, tanto quanto uma vaca, se bem alimentada, produz mais benefícios aos seus moradores. Uma cidade sugada sem que o seu povo lhe dê o alimento necessário, quer dizer, os equipamentos para continuar produzindo o seu leite (empregos, escolas, saúde de qualidade etc.) acaba ficando com o úbero completamente seco.
Outra verdade: Não adianta colocar a culpa apenas nos políticos. Eita! Nós temos a mania de transferir a culpa de tudo aos políticos, mas isso não é correto. Coloquemos a mão não consciência. As cidades com úberes secos, minguados, são as cidades sugadas indiscriminadamente.
Nossa cidade e a culpa: permitam-me reproduzir uma página do livro “Edificando a Nossa Cidade Educadora”, na qual reparto a culpa dos nossos males: “Ora, a culpa! Pesa sobre nós como um fardo. Fardo? Alguém já não disse, peguemos as nossas culpas enfiemos num saco e joguemo-las na esquina mais próxima? Ou algo semelhante? Mas como viver sem culpa se ela é parte do imaginário social do ocidente? Se já nascemos com culpa mesmo sem saber do que se trata? Não! Antes de jogar toda a culpa na esquina, façamos melhor: vamos distribuí-la segundo regras bem definidas, de modo que um tanto fique com os vereadores, outro com o prefeito; mais um tanto para os juízes, outro para os promotores. O tabelião e o general não poderão ficar de fora, mais um fardo haverá de ser dado ao bispo, outros serão distribuídos no Conselho de Pastores. E aos dirigentes de outras crenças devem ir um tanto quanto, mas que não fiquem sem os seus fardos também os professores, a polícia e os doutores, sejam estes médicos, advogados, filósofos ou administradores. Quantos fardos ainda restam? Contemplemos os comerciantes, os feirantes, os estudantes, a costureira, o amante, o comerciário, o bancário e todos os ajudantes. Continuando a partilha, com certeza muita culpa caberá às parteiras e obstetras.”