O Partido dos Trabalhadores perdeu um companheiro insubstituível. Perdemos Enio Ribeiro de Oliveira que se desfiliou ontem do Partido dos Trabalhadores. Insubstituível, porque ninguém repetirá a histórica trajetória de Enio no partido e, além do mais, essa conversa de de que ninguém é insubistituível é besteira inventada pela burguesia para tapear os trabalhadores.
Conheci Enio Ribeiro em meados da década de 1980, quando cursava Geografia do CEUD/UFMS, hoje UFGD. Em 1988 trabalhamos irmanados em uma campanha que tinha Laerte Tetila como candidato a prefeito e Hilario Paulus a vice. Nós fomos candidatos à Câmara. Éramos sete, sete Quixotes lutando contra moinhos de vento, na esperança de darmos consistência ao PT em Dourados: Iara, Onildo, Israel, Antonio Leopoldo, João da Saúde, Nilson, Enio e eu. Quanto trabalho, quanta dedicação, quanto acreditávamos que o nosso partido poderia contribuir na construção de administrações sérias, voltadas para o povo. Quanto acreditávamos na construção de uma sociedade melhor!
Tenho guardada até hoje uma fita com a gravação de um discurso que fizemos na vila São Pedro. Essa fita gravei posteriormente em CD, mas deve estar tão bem guardada que não a encontro. Assim que topar com ela a minha primeira ação será reproduzi-la para presentear o Enio com uma cópia.
Enio tinha desde aquela época um discurso firme, bem embasado em uma ideologia socialista que prega a existência de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais igualitária.
Desde então e até hoje, o professor Enio mantêm os seus princípios. Na Administração Tetila, na primeira gestão, foi Superintendente da Secretaria de Serviços Urbanos e na segunda foi Superintendente na Secretaria de Educação. No PT foi um militante exemplar, tendo participado várias vezes do Diretório Municipal, onde foi inclusive Presidente e do Diretório Estadual. Por último foi coordenador de uma das principais correntes internas do partido, a Democracia Socialista – DS.
Em todos os lugares por onde passou deixou a sua marca de honestidade, responsabilidade com a coisa pública, dedicação e capacidade politico-administrativa.
Eis que agora, 23 anos depois, Enio torna pública a sua desfiliação do Partido dos Trabalhadores. Não que tenha se cansado, não que tenha envelhecido, não que tenha feito alguma inimizade, apenas e simplesmente entendeu que a sua luta, a sua fé, a sua ideologia não é mais a mesma expressa pelo PT da atualidade. A coligação DEM e PT foi apenas a gota d’água. Muitos companheiros históricos não se conformam com os rumos que o PT tem tomado.
Eu disse, companheiros. E tenho comigo que a palavra companheiro é de origem latina e significa, na mais radical concepção, aqueles que compartilham o pão (panem). Penso que Enio seja um desses companheiros capazes de realmente compartilhar o pão. Mas compartilhar com quem, hoje em dia, dentro do PT?
Enio se desfiliou. Presumo que não tenha sido fácil, havia um laço entre ele e o partido que parecia inquebrantável. E esse laço se rompeu. Deve ter sido doloroso, como são todos os rompimentos, desde o primeiro que experimentamos na vida que é o do cordão umbilical, até o rompimento derradeiro com a vida, que também não deve ser indolor.
Entristeço-me com a desfiliação de Enio, como da mesma forma me entresteci com a saída da Iara, do Aquiles, de Heloisa Helena e de tantos outros tão valorosos companheiros. Mas de uma coisa estou convencido, se o Brasil é hoje o que é, se deixou de ser considerado um país de terceira categora para ser respeitado no concerto das nações, estou certo de que a luta de Enio e de tantos outros não foi em vão.
Não sei quantos outros companheiros deixarão o PT, mas de uma coisa estou absolutamente convicto, para onde Enio Ribeiro de Oliveira for, irá com ele princípios inabálaveis.
Consola-me o fato desse mundo ser pequeno e dar muitas voltas, então canto com Fernando Brant e Milton Nascimento a Canção da Améria: “Pois seja o que vier, / venha o que vier / Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar / Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.