Wilson Valentim Biasotto*
03.02.04 (enviada em 11/03/04)
Onze horas, se fosse, de um domingo sonolento. Acabara de ler "Quase Memória" de Carlos Heitor Cony. Olhos entumecidos, porque como bom descendente de italianos não poderia deixar de emocionar-me com a narrativa, embora mal pudesse conter uma certa indignação com o autor. Tinha quase certeza, desde o início da leitura, que o pacote não seria aberto, mas não ousaria apostar. Os romances são mesmo surpreendentes, aliás, quanto mais surpreendentes forem mais despertam a nossa atenção. Com "Quase Memória" não seria diferente, Cony é um autor enigmático. Em relação a ele nutro um sentimento que é um misto de repulsa e admiração que me intriga. Detesto o seu pessimismo e a sua assumida falta de posição política mas não deixo de ler seis vezes por semana a sua crônica diária publicada na Folha de São Paulo.
Enquanto saboreava o final do livro e me deixava levar pelas asas da imaginação, minha mulher joga na varanda, nas proximidades onde me encontrava, um laço e uma faixa enrolada.
Pego o laço e logo percebo o motivo de ter sido retirado do lugar onde repousava há mais de quinze anos: as traças. Felizmente o estrago fora pouco, insignificante. Conto a meu filho que foi o tio Honório quem trançou aqueles tentos transformando-os em laço ou em obra de arte. Mostro-lhe uma parte mais grossa e explico-lhe que não é um defeito e sim o afogador, ou seja, a parte que serve para fazer com que o laço não se arrebente quando distendito.
Bato com o laço no chão e vou me lembrando do galope ao vento, do laço rodopiando sobre a minha cabeça e a novilha rebelde que jamais lacei.
Deixo o laço e abro a faixa. Surpreso com esse achado sorrio satisfeito e vou logo contando a sua história. Uma faixa histórica! Talvez só para mim, talvez para meia dúzia de estudantes que prestaram o primeiro vestibular para o curso de Medicina no ano 2000 em Dourados.
Eis os dizeres que a faixa contém: "Vestibular Medicina - UFMS/Dourados - 03/03/2000 - Informações 421.7991". Essa faixa foi estrategicamente colocada defronte ao Instituto de Educação Barão do Rio Branco, em Catanduva e lá ficou exposta enquanto se realizava o Vestibular/2000 para o Curso de Medicina da Fundação Padre Albino em Catanduva.
Ocorreu que visitando os meus pais em Catanduva tomei conhecimento de que mais de dois mil estudantes prestariam o Vestibular na Escola Barão do Rio Branco. Não tive dúvidas: mandei confeccionar a faixa anunciando o primeiro Vestibular/Medicina que realizaríamos em Dourados. Esperto? Oportunista? Abnegado? Ou, simplesmente, medo do fracasso?
Talvez importe-me mais que definir sentimentos, saber que a faixa já completa os seus quatro anos de existência. Penso em doa-la para o Centro de Documentação Regional do Campus da UFMS/Dourados, mas a faixa em si talvez não diga nada, não signifique nada. Ela só tem valor pela sua história e a sua história está intimamente ligada ao medo que tive àquela época de que o primeiro vestibular da Medicina/Dourados não tivesse sucesso.
Ora uma faixa, um laço, um livro!. Apenas memória, apenas história, talvez para indignar o leitor que perdeu o seu tempo imaginado um outro fim para essa crônica.
O autor é doutor em História Social pela USP, atual
Secretário de Governo do Município de Dourados.