Essa mania brasileira de imitar
Torna-se famosa até internacionalmente, a fama do povo brasileiro em improvisar tudo. Esta capacidade de improvisação, esta formula de dar um jeitinho à brasileira a tudo, começa com um simples drible num campo de peladas até a realização dos mais altos negócios públicos e particulares.
De um lado essa característica de nosso povo tem contribuído para que toda atividade que requer planejamento seja relegada, o que, de certa forma, é triste e lamentável. De outro, entretanto, o povo brasileiro vai adquirindo, ou já adquiriu, tamanha capacidade criativa que é capaz até de viver com salário mínimo.
Infelizmente as pessoas que possuem em suas mãos o poder de decisão não tem se preocupado muito em valorizar essa capacidade criativa, ao contrário, tentam de todas as formas modificar esse comportamento.
Temos visto isto claramente em termos de futebol. De 58 até a conquista do tri-campeonato mundial de futebol, o selecionado brasileiro caracterizou-se pelas jogadas imaginativas de cada jogador, pela beleza de um jogo cadenciado. Quer nos parecer que este nosso futebol foi o principal responsável pela criação de um estilo novo na Europa. Passaram os países europeus a desenvolverem um jogo rápido, estudado, sistemático, para combaterem o poderio sul-americano e especialmente o brasileiro. Conseguiram. Daí o desastre, ao invés de darmos asas à imaginação e recriarmos sobre o que sabíamos, partimos para a imitação. Começamos a desenvolver um futebol à Europa que, indiscutivelmente, não condiz com as características de nossos craques.
Agora, por incrível que pareça, começa-se a pensar na Copa de 1982, tentando-se formar um selecionado que possua cada um de seus atletas com mais de 1.75 m. Coisa incrível. Bem, o prezado leitor já pensou na influencia do tamanho do rabo do peixe na formação das ondas do mar? E se alguém, antes da Copa de 82, desenvolver uma teoria que prove a influência da cor dos olhos para pratica do esporte bretão?
Imaginem nossos locutores esportivos: “Entra em campo a seleção canarinho; perfilados 11 jogadores morenos, cor de jambo; olhos azuis, todos medindo exatamente 1,77m. de altura; tamanho dos pés variando entre 39 e 40, aliás, o grande aborrecimento de nosso técnico é não ter conseguido essa padronização”.
E nossos estádios lotados pela torcida feminina, uniformizada evidentemente, parecendo vir abaixo dado o verdadeiro delírio; lindo, lindo.
Sorte mesmo teve Garrincha, Tostão, Pelé, Zico, Rivelino, Leão e tantos outros jogadores que viveram antes dessas teorias e puderam mostrar seu futebolzinho.
Wilson Valentim Biasotto
Jornal de Notícias – 04.07.78