Inicialmente tivemos vontade de fazer algumas reflexões sobre estas três palavras que serviram de título para este artigo. Ao pensarmos no assunto, apenas ao pensarmos, mudamos de idéia decidindo, ao invés de refletirmos, fazermos algumas maluquices, no papel, sobre elas e cremos que nos será permitido já que se permite muito mais: fazerem maluquices práticas que superam as “maluquices do Imperador” numa época em que inclusive já não existe Imperador em nossa terra.
Iniciemos pela verdade, que é antônimo da mentira, portanto, inimigas. Bem, nunca alguém definiu-me antônimo da forma usada, mas como sendo o contrário; ora todos aqueles que são contrários são inimigos (ressalvando-se em toda regra há exceção), portanto a verdade é inimiga da mentira.
Se a verdade é inimiga da mentira porque então esta está constantemente trabalhando com aquela e vice-versa?
Bem, a “verdade” é que no momento em que verdade e mentira passaram a trabalhar juntas surgiu a justiça para separa-las.
Com o passar do tempo, a justiça começou a confundir certas coisas, pois a verdade que é quem sempre tem razão, muitas vezes tornava-se desarrazoada. Ou, se a justiça não se confunde, a mentira é que passou a confundir-se com a verdade ou a confundir a verdade, passando-se por ela. Foi nestes tempos de antanho que surgiu a palavra injustiça.
Mas deixamos de fazer injustiça com a vitória, passemos a ela.
Vitória, num dicionário que consultamos, é o ato ou efeito de vencer o inimigo numa batalha; triunfo; vantagem; bom êxito – Não confundir vitória com o verbo vitoriar, pois este significa aplaudir; serve no máximo, para as pessoas que tem consideração àquelas que tiveram a vitória.
O significado da palavra tem favorecido certas pessoas embora não tenham o nome de Vitória, ou Vitório que seria o masculino de Vitória, se considerarmos que Mário é o masculino de Maria. Ocorre que para se conseguir uma Vitória não se precisa se necessariamente um Vitório, embora possa ser vitória o fato de consegui-la. A vitória, porque não tem sexo, pode ser conquistada tanto por homens como por mulheres e até mesmo por meninos e meninas. Sim, porque a vitória pode ser mensurada.
A menina, filha de Maria, que após muito choro ganha um sorvete, conseguiu uma vitória; o jovem, filho de Manuela que ingressou numa faculdade alcançou também sua vitória; o apaixonado, filho de Joaquina que conquistou seu amor alcançou a vitória embora possa não conhecer Vitória alguma.
Assim vemos que da mesma forma como existem vários significados para a palavra vitória existem também muitas formas de alcança-la, inclusive pode ser correndo atrás da Vitória.
Charrière, o Pappillon, ao tentar fugir das prisões por onde passou conseguia vitórias momentâneas; todavia al alcançar a liberdade definitiva é que realmente obteve a vitória.
Meneguetti, o célebre batedor de carteiras que todo o Brasil conheceu, vivia de vitória em vitória porque para ele cada fuga era uma.
Hittler e Idi Amim, os homens mais odiados em todos os tempos, conseguiram muitas vitórias – e, não me lembro bem, pois minha memória histórica esta se ofuscando, mas perece-me que nenhuma de suas companheiras eram Vitórias.
Quantas não alcançaram a vitória; até esquecia-me de que inclusive alguns rios possuem suas vitórias (régias); quantos já não se sentiram vitoriosos? Mas existe ainda outro tipo de vitória: aquela que dá aos homens a paz de dormirem tranqüilos, embora possam dormir sem nenhuma Vitória. Esta vitória é conseguida mesmo quando a justiça não consegue separar devidamente a mentira da verdade, porque é uma vitória que a Consciência, mestra da Justiça, possibilita mesmo aos que são injustiçados.
Wilson Valentim Biasotto
Jornal de Notícias – 15.07.78