Wilson Valentim Biasotto*
Recém eleito, o governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, honrou Dourados instalando aqui o seu primeiro governo itinerante, no dia 26 de janeiro de 1999. Despachando da Reitoria da UEMS o governador recebia prefeitos da região, entidades de classe, enfim, abria o seu governo para as reivindicações de nossa região.
No espaço da vice-reitoria, que funcionava como ante-sala, um grupo numeroso aguardava a sua hora para a audiência. Tratava-se da comissão executiva pró-implantação da Cidade Universitária de Dourados, representando 72 entidades douradenses que haviam endossado o projeto em julho de 1998.
Inquieto por natureza, nesse dia devo ter atingido recordes de ansiedade. Duas questões me preocupavam sobremaneira. A primeira dizia respeito à reação do governador em torno do Projeto da Cidade Universitária. Sabia que a nossa força acumulada era muito grande. Não havia segmento da sociedade que não estivesse ali representado e defendendo o projeto, mas convenhamos, normalmente se pede a um governante uma obra de asfalto, um estádio, um posto de saúde, uma estrada, e nós estávamos lá para pedir uma Cidade Universitária.
De qualquer forma estávamos preparados, todos sabíamos a hora e o que falar. Restava-me a segunda grande preocupação: qual seria a manifestação do Reitor da UFMS àquela época, professor Jorge João Chacha. Como diretor do Câmpus eu reivindicava insistentemente que entre os novos cursos que seriam abertos em Dourados a partir de 2000 estivesse incluído o curso de Medicina.
Era um desafio enorme. Todos sabíamos das dificuldades que encontraríamos pela frente, mas sabíamos também que a Medicina poderia se tornar no carro chefe para atrair as demais ciências da saúde para o conjunto de ciências que constituem uma Universidade.
Naquela ante-sala superlotada a autoridade mais assediada era o Reitor Chacha. Todos os membros da Comissão pró Cidade Universitária, a meu pedido, o abordavam para dizer-lhe que queríamos a Medicina.
Num determinado momento Chacha conseguiu isolar-se num canto sentando-se em uma cadeira disponível. Eu o olhava à distância. Nunca vira o nosso reitor tão ensimesmado. Experiente administrador não me restava dúvidas de que estava para tomar uma decisão importante. Confesso que fiquei apreensivo.
Felizmente fomos chamados para a audiência. Numa outra oportunidade, talvez em um livro que sonho escrever sobre a História do Câmpus de Dourados da UFMS, conto sobre os outros pronunciamentos desse dia. Em relação ao Reitor Jorge João Chacha devo dizer que foi o último a falar antes do governador. Voz tranqüila, diante de uma platéia ansiosa, Chacha discorreu sobre o projeto da Cidade Universitária e concluiu dizendo que criaria o curso de Medicina em Dourados usando exatamente essas palavras: "finalizando bato o martelo em relação a criação do curso de Medicina em Dourados".
Era 26 de janeiro de 1999. Dada a palavra, Chacha cumpriu a sua parte. E não foi fácil, mas o curso de Medicina em Dourados foi criado, implantado e posto em funcionamento.
Por tudo isso é que dedico profundo respeito e minha eterna gratidão ao reitor Jorge João Chacha e a todos aqueles que cumprem a sua parte.
*O autor é doutor em História Social pela USP, atual
Secretário de Governo do Município de Dourados.