Wilson Valentim Biasotto*
Nem consultou o marido, pegou o celular e ligou direto para o patrão cobrando-lhe que esquecera de levar o gás para cozinha. Como iria cozinhar sem gás? É verdade que na roça sempre se encontra uns pauzinhos de lenha, mas seria necessário fogão próprio, que ela não tinha em sua casa.
O patrão desligou o telefone, fechou os olhos e deixou-se levar pelos pensamentos, que foram se transformando em um filme fragmentado de sua vida. Lembrou-se dos tempos que, mesmo morando na cidade, levantava-se cedo acocorava-se na taipa do fogão para aquecer-se do frio, antes de ir para a escola. Talvez por isso nunca tivesse reclamado de ter que ir buscar lenha nas chácaras próximas quando faltava a lenha que o carroceiro levava mensalmente.
Ainda de olhos fechados apertou o telefone na palma da mão e como se tivesse acionado uma máquina do tempo viu-se garoto diante de um telefone fixo à parede, tirando o fone do gancho, girando a manivela duas ou três vezes e ouvindo uma voz suave dizer-lhe apenas: "telefonista". A discagem não era automática, toda ligação precisava ser intermediada por uma telefonista que conectava manualmente as linhas para ligar um assinante com outro.
Iria levar o gás. Mas, outra vez os pensamentos dominaram-lhe a mente. No seu tempo de menino quantas vezes acompanhou o tio tangendo o carro de bois. Até ensaiava alguns comandos, evidentemente inúteis, pois os bois seguiam em sua toada monótona, obedecendo apenas ao carreiro, com quem haviam estabelecido um elo de comunicação e obediência.
Abrir as porteiras do caminho era uma alegre quebra da monotonia. Pulava alguns metros antes da chegada, desprendia a corrente, empurrava a porteira ao mesmo tempo em que pulava na primeira tábua para gozar daquele embalo que durava pouco mais que um piscar d´olhos. No tempo certo, sincronizado pela experiência, os bois passavam sem encontrar nenhum obstáculo. Não havia por que parar a marcha. Fechada a porteira, uma rápida corrida e eis o menino novamente em cima do carro brincando de tanger bois.
Aperta um simples botão e automaticamente abre-se o portão da garagem. Sai. Coloca o bujão na caminhonete e segue imaginando se não seria mais cômodo, fácil e barato implantar um biodigestor na propriedade.
Em seu trajeto uma única parada. Não para abrir porteira, mas para acompanhar a descarga da soja, colhida por moderna colhedeira, em um caminhão de transporte. Nem ele, nem o operador descem de seus veículos antes de finalizada a operação, permanecem em suas respectivas gabines dotadas de ar condicionado. Finalmente cumprimentam-se, ambos limpos e bem vestidos como se estivesem prontos para ir à Igreja ou a uma festa. Conversam rapidamente sobre a produtividade, não há tempo a perder. Cada qual segue o seu caminho. O pensamento voa novamente para a infância. Desfilam diante de seus olhos o avô, pai, tios, com suas camisas xadrez, quase todas remendadas, suadas, empoeiradas, mas prontas para serem usadas no dia seguinte porque ninguém agüentaria lavar tanta roupa diariamente e nem a roupa agüentaria tanta lavagem.
Gás entregue... bastaria abrir a geladeira, separar os bifes...
Será que o marido, embora limpo, tomaria uma bela ducha ao chegar? Bem provável, afinal não seria muito trabalhoso. Talvez os mais antigos trabalhadores rurais também optassem por um belo banho, ao invés de lavarem apenas o rosto e os pés em uma pequena bacia de latão, se desfrutassem do conforto de hoje.
De volta ao lar concluiu que é vertiginosa a transformação que a sua geração experimenta. Mas que existe um grande desafio: socializar esse maravilhoso progresso científico e tecnológico de modo que todos possam desfrutá-lo. Que os avanços materiais sejam acompanhados por avanços sociais da mesma magnitude.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados e vereador (PT), licenciado para exercer o cargo de Secretário de Governo da Adm. Municipal.