Wilson Valentim Biasotto*
14.04.03 O Progresso
Nas cinco últimas décadas do século passado as ciências humanas experimentaram um avanço significativo no conceito de "imaginário social" que, grosso modo, corresponde ao conceito de "inconsciente coletivo".
Cornelius Castoriades, Branislaw Brasko, George Duby, entre outros, trouxeram para a história, para a sociologia e antropologia conceitos da psicanálise e da psicologia e, desse amálgama, construíram a teoria do Imaginário Social para explicar acontecimentos humanos.
Basicamente podemos dizer que o Imaginário Social é constituído e constituinte, ou seja, é produzido por algum fenômeno e, uma vez existindo, passa a ser produtor de novos acontecimentos, quer dizer, passa a ser constituinte. Produto da imaginação, mas sempre ancorado no real, o imaginário social explica, por exemplo, porque os Incas se renderam aos espanhóis ou porque se deu a Expansão Islâmica nos séculos 7 e 8 e as Cruzadas nos séculos 10 e 11.
Freud e Jung se constituem em referências obrigatórias para os estudiosos do Imaginário Social. O primeiro, um pensador da cultura, como ensina Renato Menzan, atribui a origem do Imaginário Social ao acúmulo e transmissão cultural de geração para geração, através dos mitos e lendas. Jung, por sua, vez busca na teoria dos arquétipos os elementos para explicar aquilo que chamou de inconsciente coletivo.
Os arquétipos, para Platão, são "cada uma das formas ideais reproduzidas nos objetos imperfeitos do mundo sensível"; para os neoplatônicos, "cada uma das idéias preexistentes na mente de Deus, a partir das quais o Universo foi constituído"; e, para Jung o arquétipo é " o conteúdo imagístico e simbólico do insconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade, evidenciável nos mitos e lendas de um povo ou no imaginário individual".
Espaço restrito, conclusões apressadas, truncadas e imperfeitas. De qualquer forma, vamos a um exemplo de constituição de uma imaginário social: uma tribo ouve um trovão. Assusta-se. Gerações e gerações procuram explicar o fenômeno sem conseguir. Mas eis que surge alguém esclarecendo que o trovão representa a fúria de um deus, descontente com eles. A explicação é aceita e transmitida de geração em geração. Eis o imaginário social constituído. À medida que essa tribo, por exemplo, passa a fazer oferendas para aplacar a fúria do deus do trovão, temos o imaginário constituinte.
Nos dias atuais o imaginário social é constituído também com fortes âncoras na realidade. O desenvolvimento da informática por exemplo, gerou crenças de que seres de outros planetas teriam colocado mega-computadores em lugares estratégicos da Terra para cuidarem da nossa evolução.
Essa teoria, se considerada extravagante pelas consciências humanas, cai em desuso, se interiorizada na maioria das mentes pode tornar-se uma crença universal.
Pregações menos exdrúxulas agem com mais eficácia na formação do Imaginário Social. Os meios de comunicação, nesse sentido, exercem forte influência. Na era do rádio éramos capazes de vislumbrar uma Paris reluzente sem mesmo nunca termos ido à Paris. Também sabíamos de sobejo que os ingleses são fleumáticos sem nunca termos conversado com um inglês. E quem não sabe que o trabalho enobrece e dignifica o homem?
É isso. Se tomarmos uma realidade, mesmo que seja uma realidade imaginada, somos capazes de constituir um imaginário social, sem querer.
São coisas complexas, cabem em livros, não em simples crônica. Daí que muitas vezes uma pequena fábula, na sua simplicidade, na sua pureza, é capaz de explicar melhor que uma teoria.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador (PT), licenciado para exercer o cargo deSecretário de Governo da Adm. Municipal.