Wilson Valentim Biasotto*
01/03/03 (douradosnews)
Em 1974, logo quando cheguei em Dourados, um estudante de Letras da UFMS, perguntou-me se a crise que o mundo ocidental experimentava àquela época poderia levar à derrocada o capitalismo.
Não, respondi enfaticamente. Os Estados Unidos ainda têm muito gás.
Com o passar do tempo esse ex-aluno, que é meu amigo até hoje, foi se convencendo de que o fim do capitalismo estava deveras longe. No entanto, em 1989, desanimado com o novo fôlego que o capitalismo puxava com a queda do Muro de Berlim, marco histórico do fracasso do socialismo real, pareceu-lhe que o declínio do Império norte-americano estava ainda mais longe.
De fato, os Estados Unidos continuaram a exercer a hegemonia, e todo o mundo capitalista que gira em sua órbita respirou aliviado com o fim do socialismo real. Em Washington gestou-se rapidamente um novo modelo de liberalismo econômico que convencionou chamar-se "neloliberalismo".
Historiadores engajados na defesa do capitalismo apressaram-se em seguir os conceitos do colega norte-americano, com nome de japonês, Fukuiama, que "profetizou" o fim da história. Comercializada e comentada no mundo todo, a obra de Fukuiama, " O fim da história", tinha a intenção de demonstrar que não havia mais espaço para se pensar na possibilidade de se construir uma sociedade com outros fundamentos que não os do capitalismo.
Como se percebe a obra constitui-se numa das análises mais equivocadas que se conhece na historiografia universal. Tanto é verdade que hoje vemos que a política econômica neoliberal não logrou impor-se com o mesmo êxito do liberalismo implantado a partir do século 18. A perversidade embutida nessas políticas econômicas excludentes encontraram, em suas respectivas épocas, sociedades com níveis civilizatórios bem diferentes e hoje, podemos constatar que o neoliberalismo, apesar de ter provocado estragos monumentais em países de todo o mundo (Brasil, Uruguai, Argentina que o digam), já perdeu o seu vigor.
O maior perdedor com o fracasso do neoliberalismo foram os Estados Unidos que não conseguiram impor ao mundo um novo "modus operandi" que dispensasse a guerra para o exercício da sua hegemonia.
Fracassado o "Consenso de Washington", ou, ao menos enfraquecido, pois não se deve esquecer que a imposição da ALCA (Área de Livre Comércio da América) é um dos tentáculos daquele enorme polvo, o Império volta-se contra o Iraque, o detentor de uma das mais ricas jazidas de petróleo do mundo.
Não se trata de desarmar o Iraque, de conter uma iminente ameaça ao mundo . Se esse fosse o real objetivo, a ONU (Organização das Nações Unidas) poderia e deveria, constituir uma força internacional porque tem poderes para tanto. Na verdade os Estados Unidos querem por que querem atacar o Iraque, independemente de toda a demonstração de boa vontade que Sadan Hussen tem demonstrado ou que venha a demonstrar. Os Estados Unidos querem um ataque ao Iraque por três razões principais: a) para assenhorearem-se da política petrolífera do oriente; b) para alimentarem com milhões de dólares a sua indústria bélica e, por via de conseqüência, manterem baixo o índice de desemprego em seu território e c) abrirem caminho para a sua vocação imperialista uma vez que se atacarem sem o apoio da ONU esta instituição estará desmoralizada e não terá forças para intervir em outros conflitos. Nesse sentido já se pode vislumbrar os próximos alvos: Irã e Arabia Saudita.
Felizmente, o processo civilizatório atingido pelo mundo atual, o avanço da cidadania, está provocando reações contrárias a um ataque ao Iraque em todo o mundo. Manifestações fortes, milhões de pessoas saindo às ruas pela paz. Portanto, se apesar de todas essas manifestações, os Estados Unidos ainda insistirem na promoção da guerra, mal sinal. Ruim para o Iraque que não terá como resistir, pior para os Estados Unidos que mostrarão a sua fraqueza de não darem conta de resolverem os seus problemas sem apelarem pela guerra. De lambuja, atrairão sobre si ainda mais ódio do que já carregam.
A guerra contra o Iraque, se ela ocorrer, será um marco para a decadência da hegemonia norte-americana. Decadência que poderá resistir ainda por mais uns cem ou duzentos anos, ou que poderá ruir rapidamente, como o Muro de Berlim, se se seguirem a Bush mais dois ou três presidentes tresloucados como ele.
É nosso dever de cidadãos (vereadores, deputados, senadores, senhoras e senhores) utilizarmo-nos do espaço que tivermos, por menor que seja, para levantarmos as nossas vozes em favor da paz mundial.
O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.