Wilson Valentim Biasotto*
25/06/03
Quantas histórias, quantas fábulas, quantos ditos populares contavam-se antigamente. Pais, tios, avós, professores, gente instruída e gente analfabeta narravam, com identica desenvoltura, histórias dos mais variados matizes, que enchiam a cabeça das crianças de sonhos, desenvolviam o intelecto, contribuiam na formação do caráter.
Muitas das histórias eram romances vulgarizados na Europa desde a Idade Média. Meu avô paterno, por exemplo, vibrava entusiasticamente quando contava as histórias dos "paladinos de frança", parecia envolver-se nas batalhas daqueles cavaleiros errantes.
De modo geral todos os parentes preocupavam-se em contar histórias de cunho moralizante, fábulas com ensinamentos cristãos, sábios ditados populares, às vezes não muito bem compreendidos no momento em que eram ditos mas sentidos mais tarde, ao longo da vida.
Os tios, principalmente os mais novos, porque a eles, ao que me parece, não se devia o mesmo respeito que aos mais velhos, contavam as histórias mais picantes e maliciosas, dentre elas as andanças do Pedro Malasartes.
Protótipo do caipira astuto, Malasartes sempre encontrava uma saída imaginativa para as enrascadas em que se metia, ou mesmo para vingar algum amigo que houvera sido enganado por outrem.
Por mais ingênuas que possam parecer, as histórias do Malasartes, a mim pelo menos legaram a lição de que não adianta querermos ser espertalhões, que tentemos enganar aos outros pois sempre haverá alguém mais esperto que nós.
Pensando que algumas histórias que sei do Malasartes possam estar perdidas no fundo da memória dos mais antigos, escrevo-as para os filhos de meus filhos e, se me der coragem até as publico para, quem sabe, servirem aos filhos de seus filhos.
A panela mágica: Certa feita um compadre de Pedro Malasartes foi enganado por um boiadeiro viajante que levou-lhe toda a tropa de muares que possuía. Burros e mulas foram levados a preço de banana, como se dizia antigamente. Indignado Malasartes disse "deixa estar compadre que vou reaver sua tropa". Tomou um atalho e quando percebeu que estava mais de hora adiante do trapaceiro, desmontou, fez um belo fogo e cozinhou um bom bocado de feijão numa panela de ferro. Quando a tropa se aproximava Malasartes apagou o fogo, enterrou bem as brasas e quando percebeu que podia ser ouvido, começou a falar em voz alta: panelinha, panelinha faça ferver meu feijão.
O trapaceiro quando ouviu aquilo apeou de sua besta e querendo saber do que se tratava, cheio de curiosidade, aproximou-se a ponto de ver o caldo do feijão borbulhando na panela.
Malasartes, como quem não quer nada, foi cumprimentando o trapaceiro e oferecendo-lhe um pouco de feijão com farinha. Mas, como maior que a fome era a curiosidade do trapaceiro ele foi logo perguntando como o feijão poderia estar fervendo se não havia fogo. Ora, disse o Malasartes, isso é muito simples quando se tem uma panela mágica.
Como Pedro Malasartes tinha cara de pouco esperto, o trapaceiro ambicioso, imaginou que ali estava mais uma de suas presas e quis logo saber quanto valia a panela.
Mais uma vez, como quem não quer nada Malasartes disse que a panela não estava à venda e mostrou-se até irritado: como haveria de vender aquela panela que lhe dava o sustento de maneira tão fácil?
O trapaceiro insistiu, tirou todas as moedas que tinha na guaiaca, que não eram poucas, e ofereceu-as ao Malasartes. Está bem disse Pedro, o senhor pode ficar com a panela se além das moedas me der também a sua tropa.
Fechado o negócio Malasartes devolveu a tropa ao compadre e ficou com as moedas do trapaceiro que está até hoje gritando para a panela cozinhar o seu feijão.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador (PT), licenciado para exercer o cargo de
Secretário de Governo da Adm. Municipal.