Wilson Valentim Biasotto*
6/02/03 (Douradosnews/Diário MS)
Piuiii...piuiii... a velha Maria Fumaça anunciava alegremente a todos os habitantes da pequena cidade que estava chegando... ou partindo. Aos incautos deixava uma nuvem de fumaça a arder-lhes os olhos e a tapar-lhes a visão.
Piuiii... os irmãos venderam os fardos de algodão que lhes custara muito suor e com o dinheiro arrecadado cada qual comprou um terno cáqui e um chapéu novo. Meteram a viola debaixo do braço e embarcaram em Álvares Machado para irem cantar no programa do Capitão Furtado, na capital paulista.
Estavam prevenidos de que não poderiam deixar a janela aberta, sabiam de casos de pessoas que embarcaram com a camisa impecavelmente branca, gravata borboleta, todos bem apessoados e chegaram ao destino parecidos galinha d'angola graças as queimaduras ou manchas deixadas pelas fagulhas lançadas pela Maria Fumaça.
Longa distância, trem muito lento, o irmão mais moço resolveu ir para o alpendre (espaço entre os vagões) para tomar um pouco de ar. Talvez a emoção de ir pela primeira vez à capital lhe enchesse o peito de emoção e quisesse descarregar um pouco a tensão. Por azar o rapaz chegou ao alpendre justo no momento em que o trem fazia uma curva na Serra de Botucatu. As luzes da locomotiva refletidas na rocha deu-lhe a impressão de que um outro trem vinha ao encontro do seu. Não teve dúvidas, saltou e rolou pelo chão ao mesmo tempo em que percebeu o seu erro e a besteira que tinha feito. Felizmente conseguiu agarrar-se ao último vagão e continuou a viagem, sujo e rasgado, dentro de um banheiro.
Nem sei se os irmãos conseguiram realizar o sonho de cantar no programa do Capitão Furtado. Dia desses, quando encontrar o filho do realizador dessa proeza, que é meu amigo e morador em Dourados, pergunto-lhe sobre o fim dessa história risível, mas verdadeira.
A velha Maria Fumaça, apesar dos pesares, como este que acabamos de narrar, levou o desenvolvimento ao interior paulista e a vários países do mundo. No entanto, o avanço tecnológico a substituiu por locomotivas mais possantes, movidas pelos mais variados tipos de combustíveis. Hoje, nos países mais adiantados temos metrôs subterrâneos, metrôs de superfície, trens de variados tipos, inclusive o famoso trem bala no Japão. Da velha Maria Fumaça ficou para muitos a saudade do seu alegre piuiii e, infelizmente, para alguns, a cortina de fumaça que não lhes deixa enxergar um palmo adiante do nariz e, talvez por isso, consigam viver apenas o prazer de esculhambar projetos alheios, sem perceberem que uma cidade como Dourados ainda pode desenvolver um transporte coletivo alternativo.
E olha lá! Se não pudermos implantar um trem bala e nem um metrô de superfície que venha um trem mais simples, mas que, além de transportar com conforto os nossos universitários possa fazer o escoamento de nossos produtos para o Porto de Santos via Dourados/Itahum/Maracaju/Campo Grande.
Piuiiii.... viva o trem! Transporte seguro e barato que poderá servir como exemplo para outros campus universitários brasileiros. Viva o trem... sem a Serra de Botucatu... Viva o trem em linha reta, sem curvas, sem congestionamentos, sem buracos nos trilhos.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados e vereador em Dourados pelo PT.