Wilson Valentim Biasotto*
01.04.03 O Progresso
Bela manhã saiu o gavião à caça de seu alimento quando foi abordado pela senhora coruja que, também ela, buscava a alimentação para os seus filhos que esperavam-na ansiosos no aconchego do ninho. Educadamente, após os cumprimentos de praxe que existe entre os pássaros, a prestimosa mãe, sabendo, evidentemente, do risco que os filhos corriam, pois poderiam virar a comida do voraz gavião, solicitou-lhe que poupasse os seus filhotes.
Diante da insistência de mamãe coruja o gavião perguntou-lhe como haveria de reconhecer os seus filhos, ainda tão novos? Sem pestanejar respondeu-lhe a coruja que não poderia haver dúvidas, bastava que ele poupasse os filhotes mais lindos da floresta. Concordou o gavião em não comer os filhotes mais lindos da floresta e ambas as aves seguiram os seus respectivos destinos.
Fartou-se o gavião. A coruja também não fez viagem em vão, só que para a sua decepção, ao chegar ao ninho encontrou somente algumas penas. Desesperada, voou até a residência do gavião, que sestiava tranquilo, e com toda a sua indignação cobrou-lhe a promessa de que ele não comeria os seus filhotes. Ora, dona coruja, como não cumpri a promessa se comi os filhotes mais feios que encontrei?
Por isso, desde o dia em que esse fato aconteceu, até hoje, costuma-se chamar de mães corujas àquelas que muito protegem, muito mimam, muito enaltecem os seus próprios filhos.
Existem também os cidadãos corujas, ou seja, aqueles que amam de tal forma a sua cidade que somente enxergam nela coisas boas. Esses cidadãos corujas ajem dessa forma porque foram influenciados ao longo de suas vidas a amarem a terra onde nasceram ou que os acolheu. Essa influência vem do berço, da escola, do rádio, dos jornais, da televisão. Normalmente são cidadãos otimistas e esperançosos que somam e exalam de tal forma fluidos positivos que sua cidade acaba se tornando realmente bonita, agradável, aconchegante. Não por ilusão coletiva, mas porque todos são capazes de trabalhar em prol daquilo em que acreditam.
Responsáveis pela formação da opinião pública, os meios de comunicação acabam exercendo uma influencia muito grande nos destinos de uma cidade. Se houver um clima favorável, tudo conspira para dar certo. Se, ao contrário o clima for de negativismo, nada dá certo.
Isso tudo pode ser facilmente medido em cidades que deram certo, em projetos que obtiveram sucesso, em famílias que souberam construir a felicidade.
Dourados deveria ser pensada também sob esse enfoque. Estudada sob esse aspecto. Pessoas vindas de outros estados não se cansam de elogiar a nossa cidade, levam fotos de nossos canteiros cuidadosamente zelados, de nossos ipês floridos. Impressionam-se com a qualidade de nossas terras, com a vitalidade de nosso comércio, com os campus de nossas universidades, com a imensidão de nossos parques, a largura de nossas avenidas, a limpeza de nossas ruas, a arborização frondosa, a enormidade de nossa reserva indígena, a convívência harmoniosa entre as muitas etnias que fazem de nossa cultura uma das mais ricas do Brasil.
Enfim, não precisamos ter medo de dizer aos gaviões (e urubus) que nos espreitam para não comerem esse filhote que nos legaram os nossos pioneiros, pois Dourados é linda e se continuar sendo bem administrada por mais duas ou três gestões, haveremos de ocupar um lugar privilegiado no concerto dos demais municípios brasileiros.
É hora de buscarmos o equilíbrio. Ou seja, sem ufanismo, que é uma forma de amor exagerado, mas com o cuidado para não formarmos uma opinião pública de contagiante pessimismo.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador (PT), licenciado para exercer o cargo de
Secretário de Governo da Adm. Municipal.