Wilson Valentim Biasotto* (26/11/03 não enviado p/publicação)
Parece brincadeira mas tenho dificuldades enormes em sentir inveja, preguiça e orgulho.
A inveja atrasa a vida, muitas pessoas que têm possibilidades de construir projetos maravilhosos prendem-se muitas vezes a projetos alheios e perdem a possibilidade de criar. Pior, preocupados com as realizações dos outros perdem a força interna para impulsionarem as suas próprias obras. Não tenho inveja, mas que o corpo de dança da Academia Anna Pavlova parecia voar suavemente na apresentação de Don Quixote isso é verdade.
A preguiça, confesso, é coisa que gostaria de ter. Ao menos de vez em quando. Mas é difícil. Passo meses e meses sem sentir o mínimo de vontade de ficar absolutamente sem fazer nada. E olha que sou um defensor do ócio criativo. Penso que a grande produção cultural e intelectual da humanidade foi produzida graças ao ócio. Quem trabalha muito não tem tempo para a criatividade. Quero ver se no futuro consigo arrumar algum tempo para a preguiça, ficar esticado numa rede ou deitado à beira da piscina ou do mar dando asas à imaginação. Mas se não me levou à preguiça, confesso que o corpo de dança da Academia Anna Pavlowa me tirou do mundo duro do trabalho e enviou-me para o mundo encantado da fantasia.
Quanto ao orgulho também não me pega fácil. Mas, confesso, às vezes sinto uma ponta de orgulho de algumas coisas que mal consigo disfarçar. Deus que me perdoe. Agora mesmo, confesso que estou sentindo um certo orgulho de ser palmeirense. Não somente pelo fato de ser campeão da segundona, mas por ter proporcionado, ao mesmo tempo, vários exemplos dignos, sendo que o mais importante é ter contribuído, juntamente com o Botafogo, para a moralização do futebol brasileiro.
Mas não é de futebol que queria falar. Desejava dizer sobre o orgulho que sinto das boas coisas de minha cidade. Mas são tantas! Nossas avenidas, nossos lagos, nossas flores... queria falar sobre o orgulho que sinto de nossa gente que cria, os nossos trabalhadores, poetas, músicos, escritores, cientistas, artistas teatrais e outros artistas das mais diferentes estirpes, Mas também são tantos, “que não lhes posso contar”.
Restrinjo-me, portanto, a um espetáculo atual, a montagem de Dom Quixote, pela Academia Anna Pavlova, dessa incansável Léa Magrini que, não obstante todas as dificuldades de se fazer arte no interior desse nosso país, tem persistido com tenacidade, e, como ela própria afirmou, " como Dom Quixote, enfrentamos os moinhos de vento...". Falo da ponta de orgulho que sinto em poder assistir em minha cidade espetáculos tão maravilhosos como o já citado Dom Quixote e o Lago dos Cisnes. Poucas são as cidades brasileiras do porte de Dourados que conseguem produzir obras dessa envergadura. Falo também da ponta de orgulho que tenho em me sentir um pouco responsável por termos hoje em nossa cidade uma bailarina da qualidade técnica de Michelle S. Saramago. Isso porque ela não veio para Dourados unicamente para dançar, veio em virtude do curso de Medicina que implantamos em Dourados. Veio para ser médica, a bailarina vai ser médica, mas creio, jamais deixará de ser bailarina pois a medicina está no seu aprendizado, mas o balé em seu sangue.
Quando assisti ao espetáculo O Lago dos Cisnes, produzido pela Academia Anna Pavlowa, ano passado, vivi momentos de grande fruição. Nesse ano, com Dom Quixote não foi diferente, mas desta feita lembrava-me constantemente de Ana Botafogo, a mais consagrada bailarina brasileira. Não sem razão.
Melhor de tudo é que Dourados graças as suas academias de dança e a Michelle S. Saramago, está produzindo uma geração de bailarinas muito promissoras. Se Michelle brilhou não brilharam menos outras solistas que não nomino para que a minha ignorância não me conduza a erro. Mas, estou certo e o futuro dirá, o bale, a poesia, o teatro, o canto coral destacarão Dourados no cenário nacional.
Que esse tipo de orgulho tome conta de mim e de todos os douradenses. E viva a Cidade Universitária de Dourados.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador (PT), licenciado para exercer o cargo de
Secretário de Governo da Adm. Munidipal.