No dia 19 próximo, às 20 hs., no Teatro Municipal de Dourados, em comemoração ao aniversário de nossa cidade, Walter Spada Bettonni lança o seu segundo romance.: "Em busca da Terra Sem Males".
Em seu primeiro trabalho, publicado, com o título de "Tapera", Walter Bettoni (re)visita talvez a sua própria infância, passeia pelas primeiras plantações de soja da Colônia Municipal de Dourados, especialmente na região que constitui atualmente o município de Itaporã, envolve-se com a vida dos pioneiros, valorizando principalmente os colonos que puseram abaixo as altaneiras perobas, imburanas, ipês e tantas outras espécies da Mata de Dourados para transformar a mata virgem em terra cultivável. Venturas e desventuras, labutas e diversões da vida cotidiana fazem de "Tapera" não somente um livro de leitrua agradável mas uma fonte documental de relevante importância para a nossa história.
"Em busca da Terra Sem Males", assim como a obra anterior, merece a nossa atenção. Aproveitemos as férias que se aproximam e incluamos em nosso roteiro de leituras esse trabalho que, tenho certeza, agradará aos leitores de modo que muitos o lerão num só fôlego.
Honrado pelo autor para escrever o prefácio de seu trabalho, torno-o público, como está abaixo, com o objetivo de divulgar essa obra de relevante valor literário, histórico, antropológico e sociológico.
Por uma terra sem males
Mais fácil buscar uma terra sem males que acabar com os males da terra. A terra sem males reside no imaginário, no maravilhoso; os males da terra são mais presentes, sentidos, sofridos, e extremamente complexos.
Não obstante, felizmente são muitos os que combatem os males da terra. Cada qual, ou cada grupo, ao seu modo e com os seus meios. Walter Bettoni Spada, por exemplo, encontrou uma maneira extraordinária de prestar a sua contribuição ao escrever um romance que, além de anunciar e denunciar algumas mazelas da vida, oferece esperança àqueles que acreditam em um mundo onde se possa viver feliz.
A terra sem males é bem ali. Tão perto, tão próxima, tão sonhada... logo adiante. A terra sem males é tão generosa, bela e farta que bem poderia ser uma ilha, nossa Utopia; ou um pomar edênico encravado entre belas colinas, ou pensamentos, um pouco mais adiante, ao Leste.
Conseqüentemente, a terra sem males é perfeitamente atingível, senão da forma como historicamente foi buscada pelos nossos irmãos índios, sob o ponto de vista físico e geográfico, ao menos se a concebermos como um "estado de espírito".
Nesse sentido, a terra sem males pode estar até mesmo sob os nossos pés. Walter Bettoni Sapda a encontra em sua obra, para os seus personagens. Encontra-a para aqueles que se complementam na realização de um sonho amoroso; para os que se libertam ao se arrependerem de erros passados; encontra-a para os que obtém vitória na luta pela posse da terra; encontra-a também para aqueles que, com sua dor, sua resignação, ou sua morte, contribuíram para atingi-la. Enfim, todos têm direito a uma terra sem males, principalmente os que jamais permitiram que morresse a esperança de encontrá-la.
Esperança sempre renovada. Tanto que, no desenlace do romance, exatamente quando toda a trama converge para o final feliz, quando a festa comemorativa de uma vitória atinge o seu auge, rufam os tambores de guerra anunciando que mais uma injustiça precisa ser corrigida.
Portanto, a terra sem males, no romance de Walter Bettoni, não é apenas aquela buscada geograficamente; é uma terra que brota da esperança e é regada tanto pelo amor como pela luta; que é dura, feita de pranto, de guerra, de dor. Não obstante, o mais importante é o sentimento de que a terra sem males é bem ali...
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Tive a satisfação de conhecer o primeiro esboço do trabalho de Walter Bettoni nos idos de 97, portanto o nome da obra não foi plagiado da Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB em 2001. Houve uma feliz coincidência. Coincidência explicada pelo desejo, talvez inconsciente, mas que se universaliza, de nos juntarmos aos nossos irmãos índios na busca por uma terra sem males.
O leitor tem às mãos um texto que transcende a uma história de amor, por mais bela que seja, e acaba debruçando-se sobre um romance de cunho sócio-cultural.
O enredo amoroso faz parte do conjunto da obra, prende a nossa atenção, mas todo o cenário restante, o que seria o pano de fundo, é preenchido por uma narrativa vigorosa que nos coloca em contato com a realidade indígena de Dourados, quiçá, por analogia, com a de várias outras regiões brasileiras.
Enfim, uma bela obra, mescla de romance com história, antropologia e sociologia, a inspirar-nos o desejo de que o texto imaginado se torne realidade de fato, e que a realidade vivida (por nossos índios) possa um dia não passar de coisa imaginada.
* Wilson Valentim Biasotto
(Douradosnews 17/12/02)