Wilson Valentim Biasotto*
( Enviado p/Diário MS 16/12/02)
No Cartório do 2º Ofício de Dourados, encontra-se cuidadosamente guardado, um Livro de Atas de relevante importância histórica. Nele estão contidas as Atas de Instalação do Distrito de Paz de Dourados e a da Emancipação do Município.
A instalação do Distrito de Paz ocorreu aos 24 de fevereiro de 1915 e a emancipação do Município deu-se vinte anos depois, em 20 de dezembro de 1935. Em 1977, graças a gentileza do Sr. Marcos Fioravante, que me cedeu o original, publiquei a Ata de Instalação do Distrito de Paz na revista Textos, órgão de divulgação científica da UFMS/Dourados. Minha intenção era publicar no número seguinte da Revista a cópia da Ata de Instalação do Município, o que nunca ocorreu porque a revista não foi mais publicada (fica a sugestão de publicação para revistas e jornais, principalmente agora que existem tantas facilidadades graças aos meios oferecidos pela informática).
Transcorridos 67 anos de sua fundação Dourados, até aproximadamente o seu cinquentenário, foi palco de intensas manifestações comemorativas. Nos últimos vinte anos, no entanto, a empolgação que havia outrora foi gradativamente perdendo forçca. Ir às compras no Paraguai virou moda e com isso sofria o comércio local que passou a abrir suas portas no dia do aniversário da cidade objetivando segurar por aqui o dinheiro que recheava as burras coreanas, chinesas e dos próprios paraguaios de Pero Juan Caballero.
Ultimamente o comércio paraguaio não assusta mais os comerciantes douradenses mas eles insistem em manter as portas abertas. Alegam que o dia 20 é próximo do Natal e que o prejuízo com o fechamento das lojas é muito grande. Preferem oferecer o dia 26 como compensação aos funcionários.
Não deixa de ser justa a reivindicação dos comerciantes, afinal se é um sacrifício para o comerciário trabalhar no feriado, não deixa de ser prazeroso para os que estão folgados irem ás compras.
Por outro lado cresce nos últimos anos um movimento cívico-tradicionalista que pretende a recuperação das comemorações alusivas ao aniversário da cidade, com a volta dos desfiles, gincanas e outras atrações, visando despertar nos moradores da cidade o amor pela terra onde vivem.
Portanto não deixa de ser justa também a reivindicação daqueles que desejam homenagear os pioneiros da cidade bem como manter aceso o espírito cívico.
Com a organização desses dois partidos, cresce a pressão sobre os vereadores que têm que posicionarem-se favoravelmente ou contrário a abertura do comércio no dia do aniversário. E todo ano, ao aproximar-se o aniversário da cidade o filme se repete.
Paira, no entanto, sobre as cabeças dos vereadores uma dúvida cruel. Se optarem pelo fechamento do comércio poderão ser taxados de provincianos. Se optarem pela abertura poderão ser chamados de neoliberais, preocupados unicamente com o lucro e não com as tradições culturais.
Só há uma certeza: os políticos não podem mais protelar e têm que buscar uma decisão sobre o assunto. O melhor a fazer, como já foi sugerido por diversas personalidades locais, é entregar ao povo de Dourados o direito de tomar definitivamente uma decisão sobre o caso. Promovamos uma grande audiência pública na qual se abra espaço para a defesa das duas posições e posteriormente realizemos um plebiscito para que livre e democraticamente os douradenses possam se manifestar. E que seja feita a vontade soberana do povo.
Como talvez seja grande a dificuldade para se escolher simplesmente entre abrir e fechar o comércio, talvez possam ser postas propostas alternativas para serem votadas, a exemplo dos shoppings que abrem a partir das 14 horas aos domingos e feriados.
E, da mesma forma como poderemos encontrar alternativas para o capital, ou seja para que os comerciantes tenham seus lucros garantidos, haveremos de encontrar também soluções para que o trabalhador não seja penalizado como excessiva carga de trabalho.
Qualquer que seja a solução vamos empenhar-nos para que o 20 de dezembro seja lembrado e festejado condignamente. Seria uma imensa ingratidão não tirarmos um dia sequer do ano para agradecer e louvar essa maravilhosa cidade que nos acolheu.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.