Wilson Valentim Biasotto*
13.12.02 (não encaminhado à imprensa)
Dedico esta crônica a Dona Ercília de Oliveria Pompeu
e a todos aqueles que como ela amam Dourados com
verdadeira paixão
O menino virou moço e o moço teve que provar aos amigos que era homem. Bebeu, embriagou-se. Maneira estranha de se provar a hombridade! Mas essas provas existem. Eu próprio quando adolescente tive que apreender a fumar. Homem tinha que fumar, embora nem todos conseguissem. Alguns engasgavam-se, tossiam, eram chamados de maricas, mas não havia meio de adquirirem o vício. Que sorte! Duro foi para mim que somente me separei do cigarro quando criei juízo aos quarenta anos de minha existência.
Mas o menino moço que bebeu o seu primeiro pileque, riu, cantou, brincou, enquanto vagueava com os amigos pelas ruas já desertas do bairro. De repente imaginou-se ofendido, ficou sério, quis brigar e só não levou uma surra de um rapaz muito mais forte porque os amigos do deixa prá entraram no meio e desviaram a sua atenção para um "orelhão" novinho que foi arrebentado totalmente.
Embalados pelo álcool o grupo continuou sem rumo, arrastando o lixo para o meio da rua, arrancando o fone de outro telefone público, arremessando pedrada certeira na lâmpada do poste da esquina, arrancando o pássaro da avenida, que era artesanal mas tinha vida, porque alegrava os olhos das pessoas que por ali passavam. Correram, saltaram, caíram várias vezes até que cada qual foi recolhendo-se em sua respectiva casa ao raiar do dia. Bêbados e exaustos.
Era vinte de dezembro, num ano em que esse dia caiu num domingo.
Levantou-se para almoçar. Olhos vermelhos, cabeça doída. Prometeu aos país que jamais beberia. Mas não prometeu que não quebraria mais pássaros e lâmpadas. Talvez porque nem se lembrasse do que havia feito, talvez porque estivesse envergonhado, ou, quiçá por medo.
A verdade é que o menino-moço-ressaca nem se lembrou que era 20 de dezembro. Talvez nem soubesse que era aniversário de sua cidade. E como haveria de saber, não teve desfile, nem banda, nem salva de tiros. E era domingo, pé de cachimbo e cachimbo é de barro, bate no jarro, jarro é valente, bate na gente... voltou para a cama e curtiu a sua ressaca.
E se não fosse domingo, o vinte de dezembro seria como um dia qualquer e ele estaria trabalhando numa loja qualquer, ganhando o mesmo dinheiro que vale a mesma coisa tanto no dia útil como no feriado. Da mesma forma não haveria desfile, não haveria banda, não haveria salva de tiros. Afinal para que salva se muitos não saberiam o por quê.
Na segunda o menino-moço refeito do primeiro porre foi para o trabalho normalmente, completamente sóbrio, mas teve a infelicidade de torcer o pé num buraco enorme da feia calçada defronte a loja de seu patrão.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.