Wilson Valentim Biasotto *
(enviado p/o progresso em 9/12/02)
Em artigo publicado em março deste ano demonstrei que Lula é um intetectual. Além de uma série de argumentações que utilizei para confirmar a minha tese, recorri a uma citação de Darci Ribeiro feita no ano de 83 defronte a Igreja Catedral de Dourados e reproduzida no livro de Laerte Tetila, sobre Marçcal de Souza: Nessa oportunidade Darci Ribeiro participou de um ato público pela investigação da morte de Marçal afirmou, referindo-se ao índio dos lábios de mel que "o intelectual não precisa escrever livro nenhum, o intelectual é o homem que é o espelho do seu povo, a voz dos oprimidos".
A minha defesa de Lula como intelectual não obteve unanimidade entre os leitores. Um colega vereador, em tom de deboche, chegou inclusive a pedir que o artigo fosse registrado nos Anais da Câmara.
Hoje, não somente reitero a minha posicão, de que Lula é um intelectual, como vou além, ouso expor a minha convicção de que ele não será apenas mais um presidente, será um estadista, ou seja, terá uma atuação notável que extrapolará os padrões normais.
Claro que a minha posição é mais uma convicção íntima do que uma comprovação científica. Mas essa minha convicção pode perfeitamente se converter em realidade, não só pelo que Lula é mas pelas circunstâncias atuais. Quero dizer que o homem, público ou não, não obstante seja agente da história é também condicionado pelas circunstâncias históricas do momento em que vive.
Lula é um líder mundialmente reconhecido tanto pela sua participação sindical como pela sua ação política. Na organização do novo sindicato brasileiro, nas greves do ABC, na luta contra a ditadura militar brasileira, na criação e consolidação do Partido dos Trabalhadores, foi que se forjou essa liderança. Uma liderança que, ao contrário de se tornar arrogante, permaneceu humilde. Lula continua ligado à sua origem e com uma impressionante capacidade de estar sintonizado com os anseios de seu povo.
Homem sofrido, derrotado diversas vezes nas urnas, Lula jamais substituiu a esperança pelo rancor. Por isso tornou-se querido, carismático. Quando esteve em Dourados, em outubro passado, a exemplo do que ocorria em todo o Brasil, teve uma acolhida tão calorosa que cheguei a temer que o povo brasileiro estivesse criando um mito, ao invés de um presidente.
Lula está preparado, maduro, pronto para assumir a presidência.
As circunstâncias também o favorecem, principalmente porque o neoliberalismo imposto ao mundo pelo chamado Consenso de Washington se transformou em um estrondoso fracasso, especialmente no que diz respeito a queda vertiginosa do ìndice de qualidade de vida do cidadão. E, se com a política neoliberal sofreram os brasileiros, muito mais se desgastaram nossos vizinhos sul americanos. Economica e socialmente arrebentados, mais que o Brasil, nossos irmãos latino-americanos têm no governo Lula a expectativa de reconstrução do Mercosul, que nos daria um certo alento para negociarmos mais firmemente com os nossos exploradores históricos.
No âmbito interno temos um terço da população marginalizada, que pode ser inserida no mercado consumidor por via de uma reforma agrária pacificamente negociada, com a implementação de uma política agrícola para o país e com o fortalecimento da indústria nacional que, por via de consequência trará a geração de milhões de empregos (talvez dez milhões).
Fernando Henrique Cardoso talvez até pudesse ter sido o estadista que desejo que Lula seja. Não foi. Embora culto, instruído, bem preparado do ponto de vista intelectual foi o presidente do possível. Lula deverá ser o presidente do impossível. Tenhamos em mente o ensinamento de B. Wotton, que nos foi repassado por Eduardo Suplicy em sua obra Renda de Cidadania: "é dos campeões do impossível muito mais do que dos escravos do possível que a evolução emana a sua força criadora" (p.109).
Que assim seja!
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor aposentado da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.