Wilson Valentim Biasotto*
Fev/2002
Importantes políticos de direita, cometeram na semana passada, alguns destemperos que longe de nos causar qualquer sentimento de alegria, por considerá-los fruto de despreparo ou desespero, causam-nos estupefação e receio. Refiro-me ao governador Roriz do Distrito Federal, ao prefeito Agripino, de Presidente Prudente e a Ariel Sharon de Israel.
Os fatos são conhecidos, Roriz, em uma de suas reuniões para distribuir, demagogicamente, terrenos para a população, pediu aos seus ouvintes que vaiassem o "crioulo petista" que se fazia presente. Agripino lamentou que Rainha não tivesse sido morto pela bala disparada por seu amigo fazendeiro, preso em Santo Anastácio por essa tentativa de homicídio. Foi além, desafiou o líder do MST para uma luta na qual já se consagra vencedor pois afirmou que mataria Rainha a tapas.
Seria uma mera coincidência a declaração do primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon, mostrando o seu arrependimento por não ter eliminado o líder palestino Iasser Arafat em 82, quando tinha essa possibilidade em suas mãos?
Em apenas uma semana três declarações que somente trazem inquietação aos democratas, de forma geral, e especialmente aos militantes de esquerda. Seria mesmo apenas destempero verbal? Ou seria melhor denominar esses atos de incitação à violência?
Semana retrasada o assassinato de Celso Daniel, semana passada essas declarações. Que nos estará reservado para as próximas semanas neste ano eleitoral?
É bom que nos preocupemos com essas atitudes. É salutar que conheçamos bem as personagens que se movimentam no cenário político. Roriz ganhou as últimas eleições governamentais no Distrito Federal concorrendo com o ex-governador Cristovão Buarque. Cristovão fizera uma administração notável, principalmente em relação ao desenvolvimento da cidadania. Na campanha não pôde, por princípios éticos prometer reajuste salarial aos servidores públicos. Roriz não teve esses escrúpulos e prometeu. Prometeu sabendo que não cumpriria e não cumpriu realmente. O Distrito Federa, que tem funcionários públicos em abundância, negou a reeleição a Cristovão Buarque.
Numa democracia essas coisas são perfeitamente possíveis. O povo escolhe quem tem a melhor proposta e, no caso, a melhor proposta era o reajuste prometido por Roriz. Só que nas próximas eleições esse fato será lembrado. Collor também tinha melhor proposta que Lula em 89, prometia o céu, enquanto Luta somente se comprometia com aquilo que tinha forças para realizar. Deu no que deu.
Em relação ao prefeito Agripino de Presidente Prudente, é bom lembrar que construiu um império econômico escorado no ensino superior. Aproveitando-se do descaso dos últimos governantes brasileiros em relação às Universidades Públicas, e beneficiando-se com a absoluta falta de critérios para a expansão do ensino superior particular, tornou-se um dos homens mais ricos do Brasil.
Enquanto isso, na Globo o comentarista Arnaldo Jabor transformava o ato de incitamento em pilhéria. Após relatar que Roriz chamara o crioulo de petista, mas omitindo que conclamou o público a vaiá-lo, ironiza: e se um crioulo do público, chamasse Roriz de branquelo, haveria aí alguma ofensa?
É isso. Tem gente para falar asneiras e gente para justificá-las. Só desejamos que todas essas coincidências não passem de um destempero verbal, mesmo porque se estivermos diante de uma reação de desespero da extrema direita desse país, inconformada em ceder espaços cada vez mais amplos para forças progressistas que aos poucos vão ganhando a confiança e a simpatia do povo, então a previsão é que teremos nuvens muito cinzentas a recobrir o nosso céu de anil.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.