Wilson Valentim Biasotto *
30/01/02
Dorcelina, Toninho, Celso Daniel, três prefeitos honrados que o Brasil perdeu em pouco tempo, três prefeitos com várias características em comum: todos do PT, todos se puseram frontalmente contra a corrupção, todos faziam administrações transparentes e voltadas para a inclusão social dos segmentos menos favorecidos da sociedade brasileira. Enfim, três prefeitos que pensavam na transformação desse nosso mundo conturbado em uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais igualitária.
Coincidência ou não, somente no estado onde o governo é petista, os assassinos foram presos.
O assassinato do prefeito de Campinas, ocorrido em 10 de setembro do ano passado foi ofuscado, principalmente pela derrubada do Word Trade Center, que ocorreu na manhã do dia seguinte.
Quanto a morte do prefeito Celso Daniel parece-me haver uma preocupação excessiva, de alguns setores, em demonstrar que o seu assassinato não se constituiu em crime político. Primeiro foi aventada a hipótese esdrúxula de que segmentos radicais do próprio PT estariam eliminando os prefeitos menos ortodoxos.
Como essa tese da autofagia petista não colou vieram novas interpretações, sempre classificando o assassinato como um crime comum, inclusive gerando uma estranha situação em que as vítimas passam a ser réus. Isso especialmente no caso de Celso Daniel, cujo assassinato se deu em um momento em que o Pentágono não foi alvejado, nem o Word Trade Center derrubado, portanto nada que servisse como cortina de fumaça para ocultar o trágico acontecimento.
Quero crer que a mídia, se tinha por objetivo confundir a opinião pública, já cumpriu perfeitamente o seu papel. Hoje, qualquer que seja o desfecho, qualquer que seja o esclarecimento dado a esses crimes, sempre ficará pairando a dúvida. Seria mesmo crime político? Seria mesmo uma conspiração contra o PT?
Desqualificar as ameaças feitas aos prefeitos petistas, inclusive ao de Dourados, é ignorar a história. Será que já nos esquecemos dos duzentos tiros disparados contra a residência de Tetila quando ele era ainda vereador?
Ah! Esse meu Brasil! Com que desfaçatez se invertem as coisas. Os assassinados se tornam culpados por lhes terem tirado a vida; os prefeitos que apresentam dossiês, que representam ao Ministério Público as falcatruas de seus antecessores, ao invés de serem louvados, são taxados de eleitoreiros e oportunistas.
Tetila, por exemplo, ao demorar um ano para apresentar as primeiras denúncias, deveria ser enaltecido pela sua seriedade: só as apresentou quando todos os estudos demonstraram claramente fortes indícios de corrupção. E se ainda podem surgir novas representações é porque os estudos de outros casos são aprofundados de forma que somente serão apresentados ao público se forem consistentes, como os primeiros.
E assim vamos fazendo a nossa caminhada por essa terra. Uns ameaçando, outros matando; uns assaltando os cofres públicos, outros fazendo das tripas coração para botar as finanças públicas em ordem, uns buscando a transparência, outros a desqualificação dos fatos. E, enquanto isso, os carroceiros zeladores vão ganhando o sustento para a família, tapando os buracos no asfalto de nossa cidade, com uma massa asfáltica desenvolvida pela Petrobrás, que talvez ainda nem seja conhecida por certa mídia de um grande centro e muito menos pelas administrações que somente pensam em mega-contratos com empreiteiras.
*O autor é doutor em História Social pela
USP, professor da UFMS/Dourados
e vereador em Dourados pelo PT.