Wilson Valentim Biasotto *
Desde os tempos em que os nossos ancestrais esforçavam-se para andar eretos, a humanidade vem acumulando o saber e, desse saber, as maravilhosas máquinas que paradoxalmente nos libertam e oprimem. Libertam-nos porque desempenham o serviço pesado e os mais diferentes trabalhos que outrora nem sonhávamos realizar. Oprimem-nos porque ao liberarem o homem do trabalho físico não o conduzem ao paraíso, mas para o inferno do desemprego e da exclusão social.
Se o saber acumulado produziu esse maravilhoso mundo em que vivemos, é correto afirmar que quem gerou toda essa riqueza científica e tecnológica foi a classe trabalhadora, ao longo de séculos e séculos.
Todos os avanços que verificamos nos mais variados campos da ciência não se constituem em fruto de um esforço individual, imediato, mas da somatória (ao longo de centenas ou até milhares de anos) de experiências, de invenções, às vezes pequenas, e que hoje resultam em sucessos espetaculares. Basta um olhar para a informática ou para a robótica. Se a notícia da tomada de Constantinopla pelos Otomanos em 1453 demorou um ano para se espalhar pela Europa, hoje uma notícia pode ser divulgada para todo o orbe concomitante ao acontecimento. Se um homem a pouco tempo demorava mais de 70 horas para produzir um carro, hoje os robôs são capazes de produzi-lo em poucas horas e sem a interferência de um único dedo humano.
Temos portanto, nos dias atuais, uma das maiores contradições já vividas pela humanidade. De um lado uma elite, apropriando-se dos meios de produção criados por gerações e gerações, desfrutam de uma riqueza incalculável; de outro, um exército de trabalhadores desempregados sendo excluídos não só do uso dessa maravilhosa tecnologia, mas também alijados de uma subsistência digna ao ser humano. Nunca, depois do fim da escravidão, as diferenças entre ricos e pobres foi tão profunda.
O novo capitalismo, que comumente chamamos de neoliberalismo, é a forma acabada de perversidade perpetrada pelo homem sobre o seu semelhante. Quem tem um emprego precisa trabalhar cada vez mais e ganhar cada vez menos para não se ver na mesma condição de seus parentes e vizinhos, desempregados e sem grandes perspectivas para o futuro.
Os comerciantes desejariam tirar as portas de seus estabelecimentos de forma que eles ficassem permanentemente abertos. Os industriais, por sua vez, gostariam de ter um único empregado para apertar um botão que colocasse em funcionamento toda a sua linha de produção.
Mundo maravilhoso e cruel. Se os governantes não tivessem se subjugado à ideologia do estado mínimo, mas, ao contrário, estabelecido um estado forte, com a sustentação das forças populares, poderiam redistribuir a tamanha riqueza que é gerada atualmente, tornando o mundo mais justo, mais fraterno, mais igualitário.
De qualquer forma há ainda boas novas que o trabalhador pode comemorar. Governos progressistas e populares implementam programas de renda mínima, bolsa escola, banco do povo, programas de segurança alimentar e, principalmente a redução da jornada de trabalho, com manutenção do mesmo salário, para que haja uma melhor distribuição de renda.
No fundo, temos atualmente o embate entre dois programas. Um, que nos conduz à competitividade desenfreada, à busca do lucro a qualquer preço e outro que levaria à redução drástica das horas semanais de trabalho e permitiria ao homem um padrão de vida muito melhor.
*O autor é doutor em História Social
pela USP, professor da UFMS/Dourados e
vereador pelo PT em Dourados.