Se estivesse só, iria para Alcalá: em resposta aos professores da Agronomia
Wilson Valentim Biasotto*
20.03.01
Recuso-me a ir embora para Alcalá (terra de Cervantes) e tornar-me um D. Quixote a lutar contra os moinhos de vento. Prefiro permanecer, firme, nesta terra querida, combatendo o bom combate, ajudando a separar o joio do trigo e defendendo princípios que trago desde o berço.
Com vagar, vêm à tona aqueles que apóiam a designação de Omar Daniel para a direção do CEUD: Roberto Djalma Barros, chefe do PAM na gestão Brás Mello, Bella Barros, vereadora do grupo de Brás Mello, e Waldir Guerra, presidente do Diretório do PFL. Os três escreveram artigos em jornais locais. Eduardo Marcondes, vereador, médico e ex-secretário de Saúde do governo Brás Mello, e Murillo Zauith, deputado estadual e proprietário da UNIGRAN, propuseram, respectivamente, na Câmara Municipal de Dourados e na Assembléia Legislativa, moções de congratulações ao indicado. Agora, os professores do curso de Agronomia do CEUD publicam um manifesto de apoio.
Não acredito que sejam somente estes os apoiadores da antidemocracia, da ilegalidade, da ilegitimidade e da imoralidade da escolha. Por certo existem outros tantos, até mais poderosos que os mencionados, mas que, apesar da decisiva participação na escolha de Omar Daniel, ocultam-se, silenciam, agindo sub-repticiamente.
Todos estão muito bem afinados, formando uma verdadeira orquestra: centram fogo contra mim e contra o PT, tentando transformar a vergonhosa nomeação de Omar Daniel em uma questão de ordem política; defendem a lista tríplice, que é uma excrescência que nos foi legada pela ditadura; ignoram ou desvirtuam a legislação vigente.
Já respondi ao Sr. Roberto Djalma Barros e à vereadora Bela Barros, em artigos nos jornais locais. Ao vereador Eduardo Marcondes, respondi da Tribuna da Câmara. Ao deputado Murilo Zauith, respondi endereçando requerimento à Assembléia Legislativa, por meio do qual solicito as justificativas enumeradas para a apresentação da moção de congratulações. Ao ex-deputado Waldir Guerra, respondi por carta, que lhe enderecei pessoalmente. Respondo nesta ocasião aos professores do curso de Agronomia.
Conheço a história do curso de Agronomia, de seus docentes e de seus alunos. Enquanto fui diretor do Câmpus, tive a oportunidade de lembrá-los, em 1998, que estavam comemorando vinte anos; promovemos então uma bela festa de encontro com os seus egressos. No entanto agora, lamentavelmente, não cabem neste espaço elogios, que não seriam poucos. Cabe sim uma resposta aos equívocos cometidos no "informe publicitário" divulgado nos jornais locais em defesa de Omar Daniel.
Sempre contestei, durante toda a minha vida acadêmica, a escolha de nossos dirigentes, antes em lista sêxtupla e atualmente em lista tríplice. Tanto defendi a democracia no CEUD que em 1978, quando a Agronomia começava a funcionar em Dourados, eu fora demitido da Universidade por "subversão à ordem vigente". Os professores da Agronomia sabem disso. E sabem mais: nos quatro anos de minha gestão, sempre respeitei a pluralidade e busquei a unidade na diversidade. Até estivemos juntos quando eles ainda defendiam que o primeiro colocado deveria ser o nomeado. Empreendemos uma grande luta para a escolha do Prof. Jorge João Chacha para Reitor da UFMS, que era o primeiro da lista e corria o risco de não ser o nomeado. Não fui eu quem mudou!
Os professores da Agronomia, por obrigação, devem saber que compete ao Colégio Eleitoral a elaboração da lista tríplice e que esta elaboração pode ser precedida de consulta à Comunidade Universitária. Sabem também que Omar Daniel participou da consulta à Comunidade, mas como teve seu nome rejeitado, concordou em ser excluído da lista pelo Conselho, em favor do primeiro colocado, Prof. Cláudio Freire de Souza. Sabem ainda que os representantes do Departamento de Ciências Agrárias no Conselho de Câmpus votaram favoravelmente a esse procedimento.
Qualquer juízo, portanto, mesmo que de um juiz federal, negando um pedido de liminar, pode até legalizar a posse de Omar Daniel, mas não é suficiente para legitimar ou moralizar a sua nomeação.
Estimo que os professores do curso de Agronomia passem agora a defender publicamente o Projeto da Cidade Universitária. Até o fim de minha gestão, seus líderes impediram a criação de novos cursos no Departamento de Ciências Agrárias e propuseram até mesmo que a área da Agronomia fosse cercada com arame farpado, para não ser "invadida" pela Cidade Universitária. Por outro lado, lamento que por ingenuidade ou por descompromisso com a sociedade douradense, tenham aceitado o jogo da divisão de nosso Câmpus, pela promessa da criação da Faculdade de Agronomia, ligada diretamente à Reitoria em Campo Grande.
Cobro-lhes, por último, publicamente, o compromisso que têm com a sociedade douradense, pois foi ela que, unida, conseguiu a implantação do Curso de Agronomia para Dourados, quando o então Reitor João Pereira da Rosa queria implantá-lo em Campo Grande.
*O autor é doutor em História Social pela USP, professor da UFMS/ Dourados e vereador pelo PT em Dourados.