Wilson Valentim Biasotto *
Nem as ciências são neutras. O cientista enfoca e conforma a realidade estudada de acordo com a sua visão de mundo.
Na política, que classifico como arte e não como ciência (embora existam até cursos superiores em "Ciência Política"), as visões de mundo são conformadas pelas ideologias e não propriamente por um referencial teórico e metodológico mais consistente, que é o fator determinante para que se defina alguma atividade como sendo científica.
Ora, se a ciência não é neutra, que dizer da política?
Na ciência, as chances de charlatanismo hoje em dia são raras, portanto, a ciência não é neutra especificamente por desonestidade do cientista, mas por existirem diferentes visões de mundo que nos permite inferir que é perfeitamente possível que uma realidade científica seja interpretada e reinterpretada posteriormente, daí, inclusive, as constantes revisões que todos os ramos da Ciência sofrem de tempos em tempos.
Na política, o que define a ação é a ideologia, ou seja, um conjunto de idéias que dá sustentação aos partidos políticos ou às classes sociais no sentido de implantarem um governo modelado por essas idéias.
Teoricamente, portanto, o embate político no interior de uma democracia representativa deveria desenvolver-se em torno de programas. Programas que resultassem em Leis que, por sua vez propiciariam a transformação da sociedade, de forma que o sistema econômico, político e social a viger fosse de acordo com a visão daqueles que venceram as eleições.
No entanto, uma vitória eleitoral não garante de imediato o estabelecimento de mudanças radicais na sociedade. Isso ocorre em primeiro lugar porque existe uma resistência natural às mudanças e, em segundo, graças a ação da oposição que, muitas vezes, torna-se mais forte após as eleições porque se unifica na luta contra os vencedores justamente para evitar as mudanças.
Por essas razões as atividades políticas são complexas, tão complexas que até mesmo muitos políticos não têm consciência do que seja a Política e fazem o que costumamos chamar de politicagem, ou seja, a deturpação da nobre arte de fazer política. Se política é a arte de governar, politicagem é a política de interesses pessoais, da troca de favores, são as realizações insignificantes.
Se na ciência é mais difícil o charlatanismo, na política é fácil se encontrar essa prática. Ocorre que o próprio povo, muitas vezes não diferencia bem as coisas e pensa que o bom político é o que dá remédio, dá bujão de gás; enfim, um clientelista qualquer pode ser considerado um bom político enquanto que um político, na verdadeira acepção da palavra, aquele que se nega a praticar ações politiqueiras, pode ser derrotado facilmente.
Isso posto, torna-se perfeitamente compreensível porque alguns "políticos" não se sentem culpados em usar trabalhadores como massa de manobra, como a falta de escrúpulos lhes permite colocar palavras deles, na boca de trabalhadores que há muito perderam a voz.
Tarefa difícil os políticos sérios tem pela frente. Tão difícil que muitas vezes ficamos até sem saber se rimos ou choramos.
Tenho ficado perplexo com muitas coisas, mas existem algumas que são bizarras, do arco-da-velha, como dizia minha avó: acompanhava o prefeito e o diretor da Funced na final dos jogos distritais, quando um torcedor que estava grudado no alambrado virou-se e lascou essa pérola, que pode bem servir de exemplo ao que estou tentado dizer: "Nóis paga o imposto direitinho prá vocês pagá um juiz que só dá cartão pro nosso time?".
Que fazer
*O autor é doutor em História Social pela USP, professor da UFMS/Dourados e vereador pelo pt em Dourados.