Wilson Valentim Biasotto *
Vivemos tempos difíceis! Época de crise generalizada que confunde as mentes. Em todos os setores deparamo-nos com questões inquietantes: as famílias se desestruturam; religiões oferecem milagres fáceis; países quebram, embora por aqui se insista em dizer que o bloco socialista é que arrebentou.
Como fruto desse contexto de incertezas, temos verificado que muitas pessoas encontram dificuldades reais para discernir o que é eticamente correto. Haja vista episódio recente em que sete dentre os pares do vereador Dorgival Ferreira, ex-presidente da Câmara Municipal de Dourados, não permitiram a constituição de uma Comissão que averiguasse se houve ou não malversação de verba pública durante sua gestão. A esses sete edis em particular e aos cidadãos douradenses em geral, desejamos tornar pública uma passagem que conhecemos da vida do vereador Tetila desconhecida até mesmo de seus companheiros de partido.
Quando Tetila era somente professor da rede estadual de ensino, a Secretaria da Fazenda do Estado depositou um salário a mais em sua conta bancária. Naquela época o professor era muito mal remunerado [o que não é novidade], mas mesmo assim Tetila não hesitou em devolver o dinheiro, apesar das dificuldades, pois teve que superar uma série de obstáculos burocráticos até encontrar a fórmula para restituir aos cofres públicos aquilo que lhe havia sido pago indevidamente.
Não pensem que tal procedimento foi um ato demagógico; Tetila sequer sonhava em se tornar político, ademais isso não se constituía em fato inusitado. Só para ilustrar, contaremos mais duas histórias, ocorridas em meados dos anos 70, envolvendo outros dois dentre os primeiros amigos que fizemos ao chegarmos a Dourados e que não são petistas.
O Mário Luís Alves devolveu a uma das funcionárias da Caixa Econômica significativa importância que recebera a mais ao descontar um cheque e o Kiyoshi Rachi voltou a um supermercado para devolver uma insignificante importância que recebera a mais no troco e que somente fora constatada ao chegar em casa. E, nesse último caso, é significativo mencionar que o Kiyoshi levou seu filho Alexandre ao lado, com certeza porque, através do exemplo, se ensina melhor do que com as palavras.
São exemplos primários, bem sei, e com certeza todo leitor tem na própria família muitos casos análogos. Mas, convenhamos, são bons exemplos para crianças em fase de formação do caráter. O ruim, o triste e mesmo deplorável é quando temos que nos reportar a esses exemplos primários para lembrarmos aos representantes do povo que a honestidade e a transparência devem ser princípios basilares na vida pública. Agora já não é suficiente investigar-se a fundo somente a gestão de Dorgival Ferreira, é necessário também sabermos o que têm a esconder os sete vereadores que impedem a transparência da coisa pública. E sem nos desesperançarmos com o fato de termos na história recente assistido a muitas impunidades. Lembremo-nos de que mesmo a grande caminhada se faz passo-a-passo e que, por certo, doravante o político douradense pensara melhor ao dispor do dinheiro público e o eleitor ao menos haverá de saber,antes de dar seu voto, se o seu candidato aprendeu quando criança a devolver o que não era seu
Somente com muita perseverança haveremos de conseguir que nos seja restituída a carta de cidadania que nos tem sido rasgada ora por ditadores, ora por políticos sem escrúpulos.
* Wilson Valentim Biasotto é professor de História no CEUD/UFMS e presidente da ADUFMS, regional de Dourados, MS.
domingo, 11 de junho de 1995