Wilson Valentim Biasotto *
27-set-96
Parou a caminhonete e pediu que a índia velha subisse com a sua prole na carroceria. Bom, se era velha realmente, em termos cronológicos, não se sabe. As rugas e os traços duros de seu rosto tanto podiam expressar o desgaste natural provocado por uma existência longeva como ser fruto dos sofrimentos causados pela desdita de ser índia e ser pobre.
Velha ou não, a índia foi levantando as crianças menores enquanto os mais crescidos subiam rapidamente sem necessitarem do auxílio da mãe. Acomodada a prole, a mulher subiu o mais rápido que pode, como quem não ignora que os brancos sempre tem pressa.
O motorista, que ao parar o carro não notara que a família era tão numerosa, ficou meio apreensivo. Lembrou-se da história de um amigo que após dar carona para uma jovem capotou o carro e viu-se envolvido em um processo. A família da moça queria uma indenização vultuosa para pagar as despesas de hospital e compensar os danos recebidos. Talvez por isso, foi um alívio quando as batidas na gabine anunciaram que era ali o local onde os índios desceriam.
Não andou cinco minutos quando viu três homens à beira da estrada junto a um carro. O mais velho acenava para que parasse e o nosso motorista mais uma vez viu-se dando uma carona amiga a um senhor que deixara os filhos cuidando do carro enquanto ia à cidade buscar um mecânico.
Enfim chegou em sua casa. Se um indiozinho daqueles tivesse caído da caminhonete? Se aqueles três homens ao invés de estarem com o carro quebrado fossem ladrões e lhe tivessem tirado os pertences e, quem sabe a própria vida? Abanou a cabeça meio desolado. Que mundo!, pensou com os seus botões, mesmo que se queira, mesmo que faça parte da nossa própria índole, é difícil praticar a solidariedade.
*O autor é Doutor em História Social pela USP e professor no CEUD/UFMS