Wilson Valentim Biasotto *
Uma vez um amigo meu entusiasmou-se com a idéia de abrir um lacticínio. Seu raciocínio não me parecia incorreto: o leite é um produto básico para a alimentação, alimento que não deveria faltar na mesa de ninguém, desde os mais ricos até os menos favorecidos. Estes, mesmo que não o pudessem comprar receberiam de órgãos públicos. E neste ponto o meu amigo equivocava-se pois pensava ele que os governos, tanto municipais quanto estaduais e federal estavam colocados para servirem especialmente aos menos favorecidos. Pensava que o Estado tinha uma função social. Mas afinal não o culpo por equivocar-se, quando o meu amigo estava com essa idéia na cabeça, não se falava ainda em neoliberalismo.
Dono de uma boa idéia, um bom sítio e umas belas vacas leiteiras, o meu amigo conseguiu um empréstimo no Banco do Brasil (sinal de que a sua idéia não era ruim) e com muito trabalho e sacrifício colocou o seu lacticínio em funcionamento. E aí começaram os seus problemas. Falta de energia elétrica, estradas vicinais mal conservadas e, principalmente, uma fiscalização implacável (que salutar se fosse para o benefício do consumidor).
O desiludido dono do lacticínio andava desconfiado de que algo havia por trás daquela fiscalização severa. Achava que o concorrente, muito mais poderoso exercia alguma forma de pressão. Não resistiu. Vendeu o fruto de seu trabalho e de suas ilusões ao concorrente que desmontou toda a estrutura e levou-a para não sei onde.
Hoje, a firma que comprou aquele pequeno empreendimento tem um concorrente ainda mais poderoso que ela e passa por uma crise sem precedentes. Não creio, entretanto, que as suas dificuldades finaceiras, que fazem com que não pague aos seus fornecerores há seis meses, se devam a pressões desse novo laticínio que temos em Dourados. De qualquer forma os fornecedores de leite, na grande maioria pequenos proprietários, já em situação difícil em virtude da inexistência de uma política agrícola voltada para os pequenos, e incapazes de organizarem-se em uma grande cooperativa, sofrem ainda mais.
Quanto à rádio devo dizer que no último sábado (02/03/96), entrou no ar, em caráter experimental, uma rádio comunitária transmitindo para Dourados na freqüência de 107,9 mh.. Foi lacrada pelo Dentel terça-feira, (05/03/96) sem nenhuma ordem judicial e sem que ninguém até então tivesse dito uma única palavra. Só se tocava música. Música que era alegre para todo um povo, mas que doía aos ouvidos daqueles que defendem o monopólio na informação e do poder.
* Wilson Valentim Biasotto é doutor em História Social pela USP e professor no CEUD/UFMS
7-mar-96