Wilson Valentim Biasotto *
6-ago-96
Conheço José Passarelli única e exclusivamente através do que ele escreve em suas crônicas nesse espaço que “O Progresso” tem aberto àqueles que queiram expor suas opiniões, como é também o meu caso, em algumas oportunidades. É um espaço privilegiado do jornal, lido e comentado, porque trata de manifestação de opiniões. Tenho lido preferencialmente, as crônicas escritas por moradores locais, não por bairrismo, mas porque os cronistas globais desagradam-me com suas mesmices bajulatórias aos governantes da vez. Dentre as crônicas locais as de Passarelli têm sido alvo de minha atenção, apesar de nem sempre concordar com aquilo que defende.
No dia 6 de agosto Passarelli escreveu sobre Marighella e Lamarca em crônica denominada “Nós somos o Brasil”. Sobre esse tema é que pretendo intrometer-me, não sem antes cumprimentar o cronista por levantar os pontos fundamentais da recente discussão sobre a indenização da família desses dois soldados mortos em situações que não se enquadram em nenhum regulamento ético. Ambos foram executados e não mortos em combate, por via de conseqüência, merecem uma retratação da parte do Estado que, em última análise, foi o responsável por tais atos.
Não se trata de condenar o Exército do Brasil, este, enquanto instituição tem os seus objetivos estabelecidos na Constituição e, em assim sendo, deve merecer o nosso respeito. Trata-se de condenar atos de pessoas que se valeram da Instituição para torturar e matar seres humanos, semelhantes, irmãos de uma mesma Pátria, pela único crime de pensarem diferente.
Afirmações, como as recentemente feitas pelo coronel Jair Bosonaro, de que Lamarca deveria ter sido morto a coronhadas, devem merecer o nosso mais veemente repúdio. A sociedade brasileira deve preparar-se convenientemente para que jamais se repita em nosso país cenas de prisões arbitrárias e de torturas, por qualquer motivo.
Para tanto deve, de um lado, conhecer profundamente o que foi o Golpe Militar de 64 e, de outro, estimular o desenvolvimento da cidadania. A respeito do tema, aliás, está sendo desenvolvido, no CEUD/UFMS, um projeto de pesquisa que consiste no levantamento de fontes orais, denominado “Ressonâncias do Golpe Militar de 1964 na Região de Dourados”. Nesse projeto, cerca de sessenta alunos do curso de História, procuram entrevistar pessoas que se envolveram, direta ou indiretamente, apoiando ou manifestando-se contrariamente ao movimento de 64. Muita coisa, com certeza, virá à tona e saberemos que as torturas, as prisões arbitrárias e as perseguições, não foram apenas coisas distantes. Marighella e Lamarca não estão assim, tão distantes de nós.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e professor do CEUD/UFMS