Wilson Valentim Biasotto *
01/08/96
Se o leitor não leu as reportagens publicadas pelo “O Progresso” sobre o estado de conservação de nossas estradas e se faz algum tempo que não sai de Dourados é bom ficar prevenido: elas encontram-se em estado de calamidade pública. Buracos e mais buracos... e todos de boca para cima. Fazem-me lembrar a piadinha que circulava em Dourados em 1974/75, época em que a Avenida Marcelino Pires era praticamente intransitável: dizia-se que havia buracos dependurados nas árvores esperando vaga.
Assim se passa atualmente com as nossas rodovias federais. O cúmulo é quando você, após quilômetros e quilômetros sacolejando, se depara com uma placa anunciando: “acostamento em desnível nos próximos dez quilômetros”. Seria risível, não fosse trágico.
Só falta o ministro dos transportes ter a mesma idéia do seu colega da saúde e criar um imposto especial para a conservação das rodovias. E olhem que, pensando bem, seria até mesmo melhor mais esse sacrifício do que a solução dada à via Dutra que foi “privatizada”. Leia-se: jogada fora pelo poder público, como vem ocorrendo com todas as privatizações feitas no Brasil.
Quantos leitores já não tiveram pneus estourados por não terem desviado à tempo de um ou outro buraco? Quantas avarias mecânicas não se verificaram? Quantos acidentes com vítimas, inclusive fatais, não foram provocados?
Com certeza o Estado deveria ser responsabilizado por todos esses danos, mas como nesse país a confiança na eficiência da justiça também anda capenga o recurso encontrado tem sido apelar para a fé e rezar para que nada de grave aconteça em viagens. E como não é só no que concerne às estradas que as coisas vão mal, é facilmente compreensível porque estão prolifererando vertiginosamente as mais esdrúxulas religiões oferecendo milagres fáceis.
Felizmente o ministro dos transportes prometeu recuperar as nossas rodovias. De minha parte, fingindo crer nessas promessas, gostaria de sugerir a inclusão da rodovia que liga Dourados ao distrito de Itahum nos planos de recuperação. Creio que ao menos o trecho que liga o centro da cidade ao aeroporto deveria ser dotado de pista dupla, ciclovia e iluminação. Afinal, nesse trecho, além do aeroporto, encontram-se localizadas duas universidades, a Estadual e a Federal; o quartel do Exército; um acesso importante para a Reserva Indígena; o Centro de Tradições Gaúchas; dois ou três armazéns de cereais; além de já cortar loteamentos importantes e dezenas de pequenas chácaras.
Bem vindas as reformas prometidas, mas como se tem registros de muitos acidentes nesse trecho, essas providências também são prementes para que não tenhamos aqui uma outra “rodovia da morte”.
*O autor é Doutor em História Social
pela USP e professor no CEUD/UFMS