Wilson Valentim Biasotto *
A palavra constitui-se numa das mais importantes descobertas da humanidade. Dos grunhidos do homem primitivo à comunicação - meio desregrada - dos internautas (navegadores da Internet), a palavra tem servido de forma extraordinária e maravilhosa à humanidade.
Muitas vezes, é verdade, a palavra foi usada para declaração de guerras, para a prática de crimes e uma infinidade de idiotices que cometemos ao longo dos séculos. Não obstante, é inegável que a palavra se constitua num dos mais fantásticos empreendimentos realizados pelo homem. Articular a palavra, escrevê-la, é uma arte fascinante; sintetizar numa frase um estado de espírito, mais que uma arte, é um dom.
Meu desejo hoje é tomar três frases, que conheci em passado recente, para tentar demonstrar ao leitor como é possível sintetizar grandes sentimentos com o uso da palavra. E atentem para um fato: esses autores não dispuseram da mídia para expressarem-se.
“Amar é descascar amendoim para a Rita na festa do peão em Barretos”, estava bem legível no muro de um supermercado cujo dono, insensível ao mais grandioso sentimento do homem, mandou apagar, aplicando uma demão de tinta. Desconhecia, talvez, que amar é tudo. No amor, está a origem da própria vida.
Fruto do amor, um ser tornou-se homem sem perceber. Também amou e desse amor nasceu uma menina. De repente esse homem parou e notou que a menina também crescera. Então, o sentimento que brotou em seu peito foi maior que o seu próprio grito. Como que para aplacar a sua angustia escreveu num muro de São Paulo uma frase que ficou famosa: “Socorro, minha filha menstruou”.
Palavra, a expressão do amor ardente à consciência da maturidade.
Outro dia, uma amiga aposentada, numa roda de amigos, arrematou uma conversa com uma frase cortante: “Estamos enterrando os nossos pais”. Com isso ela não somente expressava o profundo sentimento de perda, como anunciava, com tristeza, a entrada à velhice.
Esfriei-me ao ouvi-la. Não havia vento. Então a palavra ficou pairando no ar, enquanto nós, seus ouvintes, engolíamos silenciosamente desse cálice amargo da verdade.
Amar, menstruar, morrer. Eis o resumo da ópera, e da vida. Tudo expresso em três curtas frases.
A propósito: Há pouco escrevi, nesse espaço, uma crônica denominada “Que me permita Passarelli”, na qual pretendia demonstrar a minha concordância com a opinião expressa por José Passarelli sobre tortura e execuções. Lamentavelmente faltou-me precisão no uso da palavra e a minha intenção ficou prejudicada. Para o meu conforto, em sua réplica, Passarelli demonstrou ser um gentil-homem e não me destratou pelo equívoco.
O autor é Doutor em História Social
pela USP e professor no CEUD/UFMS