Wilson Valentim Biasotto *
... não estrondam como lá... Era pequeno ainda, mas lembro-me perfeitamente da irritação do meu avô quando, após uma eleição, pipocavam os rojões na porteira de seu sítio. Como bom italiano não deixava barato e trazia à terra inúmeros Santos que não tinham absolutamente nada a ver com os estrondos. Tirava uns porcos... quer dizer blasfemava muito.
É bom que me explique. Em São Paulo, quando eu era criança, e nisso se vão mais de quarenta anos, existiam dois líderes políticos que dividiam a atenção do eleitorado: Jânio Quadros e Ademar de Barros. É provável que em nenhum outro lugar do Brasil tenha existido tanta paixão política envolvendo dois políticos contemporâneos. Não falo do getulismo que talvez tenha revelado uma paixão até mais intensa, porque Getúlio foi um caso para ser analisado em outro contexto. Na verdade, em sua época, Getúlio não teve um adversário à sua altura.
Jânio e Ademar não. As disputas entre eles eram palmo-a-palmo, voto a voto. Até mesmo as piadas que circulavam sobre ambos acabavam empatadas, tanto em número como em gênero. Janismo e ademarismo constituíam-se, portanto, em mais que simples adjetivos qualificativos que distinguiam seguidores daquelas facções, eram adrenalina pura.
Tanto é verdade o que digo que o leitor pode percorrer sua memória e ver se encontra termo de comparação. Aqui em nosso Estado, por exemplo, se fala por acaso em Wilsismo, Pedrismo, Hamorinismo? Dos governos militares nem pensar, castelismo, figueiredismo nem soam bem. E vejam que o próprio Juscelino, apesar da sua grande estatura política, não conseguiu emplacar um juscelinismo.
Voltando ao meu falecido avô, desejo completar dizendo que era janista roxo, fanático, como ademais eram também fanáticos os seus adversários ademaristas. Ora, sua irritação ao ouvir o pipocar dos rojões era justificada: Jânio havia perdido alguma eleição e os adversários ao soltarem os rojões promoviam simplesmente a sua festa de vitória. Talvez não faltasse, é verdade, um tom provocativo, mas tudo bem, bastava esperar uma outra eleição para a revanche. Na hora bastava o xingamento para desabafar.
Bem, essas coisas se davam pelos lados da araraquarense, mais precisamente em Borborema. Em Santo Anastásio, terra do Tetila, não estou certo se se passavam da mesma forma, mas é provável que sim. Afinal quando foi despertado pelo estampido de mais de duzentas balas em sua porta, na manhã de 20 de março de 1995, horas após a votação da CPI do Dorgival Ferreira, Tetila disse simplesmente à sua esposa: “são rojões que o pessoal solta à nossa porta para comemorar”.
Passado o susto Zonir, esposa do vereador petista, que é da família Matos, disse-nos em tom de brincadeira: “nem nos tempos dos meus ancestrais as coisas eram assim por aqui”.
Mas apesar do acontecimento ser chocante não creio que a sociedade douradense deva ficar apreensiva. Nossa polícia tem dado provas de grande eficiência quando nossas autoridades são molestadas de alguma forma. Haja vista a rapidez com que desvendou o seqüestro da filha do ex-prefeito, Braz Mello e prendeu os seqüestradores do neto do governador Wilson Martins. Não será agora que haverá de faltar-nos.
*O autor é doutor em História
pela USP e professor no CEUD/UFMS