Wilson Valentim Biasotto *
16-set-96
Levava meu irmão e um tio que nos visitava para uma volta pela cidade e ia comentando com eles sobre o que víamos: a usina velha, tombada pelo patrimônio histórico e que todos esperamos seja recuperada brevemente; o parque os Ipês; o Teatro Municipal, que muito provavelmente será inaugurado ainda neste ano... De repente deparei-me com um pedágio.
Confesso que se tivesse alguma escapatória, com certeza teria evitado passar por ali, mas não foi possível, quando dei conta não tinha para onde virar o carro: estava diante de uma corda estendida, atravessada na rua e segura nas extremidades por um casal que conheço desde longa dada. Foi como nessas blitz organizadas pela polícia de trânsito em que o motorista não tem como escapar.
Ao escolherem um local tão bem situado estrategicamente os meus amigos demonstraram ser verdadeiros artistas. Além de não ter como sair por ruas transversais, uma dessas tartarugas horrorosas obrigou-me a reduzir drasticamente a velocidade. Aliás está aí uma coisa que não entendo: uma cidade ter tanto dinheiro para gastar em concreto para fazer esses obstáculos e não tê-lo para comprar um pouco de tinta que os fizesse mais visíveis, evitando-se assim tantos estragos em nossos veículos.
Como essa é uma outra história, voltemos ao acontecido. Fiquei surpreso só em ver aquela dupla tão conhecida ali postada, e, muito mais, quando soube que juntava dinheiro para a montagem de uma peça de teatro. Mas não foi só, também fiquei sabendo que essa não era a primeira experiência, já haviam feito um pedágio idêntico para arrecadar o dinheiro das passagens para apresentar a peça “Rainha do Rádio”, em Jardim, onde se realizou recentemente a Mostra de Teatro Amador do Estado.
Jamais imaginei que um grupo, representando a nossa cidade, precisasse pedir dinheiro na rua para deslocar-se. Constrangido por isso, mas também porque não carregava naquela oportunidade um único centavo, procurava uma maneira de desculpar-me. Felizmente, entretanto, não foi preciso, meu tio estendeu o braço e passou um generosa contribuição. Aliviado, embora meio sem graça, segui meu percurso desejando boa sorte àqueles amadores de teatro.
Ato seguinte teci algum comentário sobre a garra daquelas pessoas, sobre a paixão que tinham por teatro, mas não tive coragem de dizer que nós estivéramos diante de Lourdes e Toni: ela, uma das melhores e mais premiadas artistas teatrais do Estado, ele, seu companheiro inseparável, verdadeiro coringa como iluminador, contra-regra, sonoplasta, enfim, um carregador de piano. Assim, talvez os meus parentes pensem que estiveram diante de principiantes, de gente que ainda não fez por merecer apoio e incentivo.
*O autor é Doutor em História Social pela USP e professor no CEUD/UFMS