Wilson Valentim Biasotto *
27-out-96
Já se vão mais de quarenta anos desde que Armando Campos Belo e Nelson de Araújo disputaram uma das mais concorridas eleições para a escolha de prefeito de Dourados, mas, ainda hoje, se comenta uma interessante história acorrida àquela época.
Campos Belo, declarado derrotado após a apuração, ficou inconformado, entendia que o resultado das urnas era diferente do anunciado. Recorreu então à Justiça e ficou esperando pelo resultado. Enquanto um aguardava o outro governava.. Nelson de Araújo iniciou o seu mandato em 1951 e administrou o município até 1955, portanto durante quatro anos. Somente quando faltava apenas um dia para o término de seu mandato é que a Justiça, finalmente, deu o seu veredicto: Armando Campos Belo ganhara a eleição.
Que fazer? Nada! Absolutamente nada! O mandato para o qual Armando Campos Belo se elegera havia acabado. Ganhou mas não levou. Alguns anos mais tarde, pelo que me consta, Campos Belo foi prefeito de Caarapó.
Não é o caso de questionarmos aqui se Nelson de Araújo fez ou não uma boa gestão. O que nos interessa, no momento, é a discussão sobre a morosidade da Justiça. Naquela época, como se viu, andava no ritmo dos carros de boi. E, como a capital era muito longe, tudo se tornava custoso. Hoje, com a capital bem próxima, com tanta tecnologia, com a informática à disposição e toda uma parafernália de instrumentos legais estaríamos melhor servidos pela Justiça?
Recorramos à nossa Câmara Municipal. Nessa última legislatura, tivemos ao menos quatro vereadores envolvidos com a Justiça: Azola, Bela, Dorgival e Péricles. O primeiro, e único cassado, por algumas confusões que provocou, Bela e Péricles por clientelismo exacerbado e Dorgival por malversação de verba pública. O mandato desses vereadores, como sabemos, expira no dia 31 de dezembro, resta saber se o veredicto da Justiça será dado em tempo.
Aliás, tempo para que? Parece que tudo está como dantes no quartel de Abrantes! Na verdade, o veredicto já pouco interessa. O povo, que tem a Justiça para defender-lhe de toda sorte de abusos, acabou sendo mais rápido e já julgou em 3 de outubro: nenhum desses vereadores foi reeleito e também não o foram os contrários a cassação de Dorgival. Todos não. Ficou o Dioclésio Artusi para contar a história. Mas como o Dioclésio jamais subiu à tribuna para falar é provável que nem a história seja contada.
Enquanto isso, no mundo encantado de FHC discute-se a reeleição, como se isso promovesse, por si, a tão necessária reforma do Judiciário, aumentasse o número de juizes e melhorasse os salários dos servidores da Justiça, para que ela entrasse em ritmo mais rápido que o do carro-de-boi.
O autor é doutor em História Social
pela USP e professor do CEUD/UFMS