Wilson Valentim Biasotto *
Minha memória não me tem sido motivo de orgulho. Compará-la com a de alguns amigos nem pensar. O Ramiro, por exemplo, consegue com facilidade repetir a chamada feita no tempo do exército e ir enumerando de 1 a 150, os nomes de nossos colegas de farda, quando servimos. A vida é assim mesmo. Uns são mais dotados para algumas coisas, outros para outras, e existem ainda os que não são dotados para nada. De qualquer forma todos tem o direito à vida. Não invejo ninguém e se a minha memória não é de elefante, ao menos tenho algumas lembranças que desejo compartilhar com os leitores.
Quando cursei o primário, não existiam, na minha cidade, escolas particulares. Na escola pública sentavam-se, lado-a-lado, filhos das mais variadas origens sociais. Era uma convivência gratificante, aprendíamos a nos respeitar, os ricos tomavam conhecimento da existência dos pobres e estes tinham a expectativa de que, se houvesse esforço, poderiam ascender socialmente. Ah que tempos! Tempos de sonhos e de ilusões. Sonhos realizados para uns, desfeitos para outros.
Güerino e Stefano sentavam-se sempre nas primeiras carteiras e vieram-me à lembrança como paradigmas perfeitos para mostrar como uns podem ser bem sucedidos e outros não. Atentos e estudiosos disputavam, ao menos nos dois primeiros anos escolares, as melhores notas. Depois, Güerino foi decaindo, suas notas eram cada vez mais baixas e só conseguiu o diploma do quarto ano primário porque colou, quero crer que com a complacência da professora. Desistiu, abandonou tudo para ser cortador de cana.
Ao contrário, Stefano continuou firme em seus estudos, concluiu o primeiro e segundo graus (Ginasial e Científico, como eram chamados na época), seguiu para o Rio de Janeiro e hoje, para encurtar a história, tem dependurada, em frente ao seu consultório, uma bela placa de bronze onde se lê: “Dr. Stefano, urologista”.
Güerino morreu. Mal tinha completado quarenta e sete. Ironicamente quarenta e sete anos é a vida média dos canavieiros. E ele foi logo morrer com essa idade para confirmar a estatística. Parece que levava uma vida muito desregrada. Levantar cedo, vá lá, era próprio da profissão, mas não precisava ir dormir tarde, e ainda com a cara cheia de cachaça. Ouvi dizer que às 5:00 horas da manhã, quando encostava no ponto do caminhão que o levava ao canavial, ao invés de dirigir-se ao bar do Abílio para tomar um café com leite, pedia um lavrado de pinga. Dizia aos amigos que era para calibrar.
Morreu sem sequer esperar o julgamento que haverá no dia 8 próximo, quando o Supremo Tribunal Federal decidirá se a reforma da previdência poderá ser apreciada ainda este ano. Se puder e for aprovada, o trabalhador brasileiro, em sua grande maioria, poderá se aposentar com 65 anos.
Puxa! ainda faltavam dezoito para o Güerino. Não sei porque tem gente, como ele, que escolhe ser cortador de cana e opta por tomar cachaça às cinco da matina.
Um dia ainda peço para que o Ramiro faça a chamada da nossa turma do exército: quero ver quantos já morreram sem se aposentar, por terem optado por profissões erradas.
*O autor é doutor em História Social
pela USP e professor no CEUD/UFMS