Wilson Valentim Biasotto *
21-set-96
No tempo em que os animais falavam, o leão, sentindo o peso dos anos, percebendo que seus músculos, outrora tão fortes, já não obedeciam mais com a mesma rapidez aos comandos de seu cérebro, resolveu dar um jeito na vida.
Depois de muito matutar sobre o que fazer chamou para uma conversa o macaco que nessa época já tinha renomada fama de fofoqueiro. Com muito cuidado, para não se deixar trair, afirmou estar cansado da vida que estava levando. Aquilo era vida de cachorro, não de leão. Queria mudar seus hábitos, desejava subir em árvores e saltar de galho em galho para ver mais longe, como o seu amigo macaco.
Fofoqueiro sim, mas bobo não, é o que deve ter pensado o macaco naquela hora, pois muito rapidamente envidou os seus melhores esforços para demover o leão daquela intenção. Foi usando uma série de argumentos tão lógicos que bastariam para reverter a idéia inicial do leão, mas, preocupado com o que pudesse lhe acontecer, tratou de encontrar um argumento definitivo. Procurou demonstrar ao leão que ele era muito mais útil no chão que trepado em árvores, sugeriu-lhe então a hipótese de realizar eleições para a escolha de um chefe dos animais e que o candidato ideal seria ele, o leão. Não poderia, portanto, nesse momento mudar os seus hábitos; os eleitores, que seriam todos os bichos, por certo o taxariam de exibicionista e por aí afora.
O leão segurou-se, não podia deixar transparecer que era exatamente isso o que desejava. Depois de insinuar alguma resistência, deixou por conta do macaco toda a organização. Este, dando por barato sair-se dessa sem risco de vida, não se fez de rogado e em pouco tempo organizou tudo.
Na véspera da eleição, o Leão convidou a bicharada para uma grande festa. Naqueles tempos isso era permitido, mesmo porque não existia ainda nenhuma legislação eleitoral. E os bichos compareceram em massa: foi um churrasco grandioso. Todos comeram até se arregalar.
No dia seguinte houve a votação, no outro a apuração, o leão era o rei, eleito democraticamente. Somente então, passado o alvoroço provocado pela eleição, os bichos deram pela falta da zebra. Tudo pareceu-lhes muito claro e até o burro pareceu não ter dúvidas quanto ao responsável, mas, por medo, ninguém ousou abrir a boca ou o bico. Alguns meteram o rabo entre as pernas, como o lobo; outros tornaram-se vegetarianos, como a lebre; a girafa, de tão desconfiada das coisas passou a andar com o pescoço exageradamente esticado; alguns, como o urubu, juraram que somente comeriam carne em estado de putrefação, pois assim saberiam que o bicho tinha morrido por morte natural.
Depois disso passou a ser comum vez ou outra desaparecer algum bicho, mas se mesmo antes do leão ser rei todos já o temiam, imaginem depois de estar investido do poder real.
* O autor é Doutor em História Social pela USP e professor no CEUD/UFMS