Wilson Valentim Biasotto *
12-ago-96
Velhos tempos. Estradas ruins, conservadas a enxadão, graças aos mutirões dos proprietários rurais. Nem haviam surgido ainda as primeiras lâminas, puxadas por bois carreiros, para aplainar as estradas. Nesse tempo meu pai era ainda um garoto cheio de curiosidade que se encantava com as aventuras dos mais velhos.
Por essas estradas de chão, sem pontes, com certeza ainda piores que as nossas esburacadas vias asfaltadas, transitavam os possantes carros de bois, o mais eficiente meio de transporte da época. Alguns cantavam alegremente, outros seguiam silenciosos o seu caminho. Eu cheguei a conhecê-los na minha infância. Quando passava férias no sítio de meu avô, acompanhei meu tio em várias viagens à cidade para levar café e trazer a palha, que era jogada nos cafezais, como adubo.
Meu pai os conheceu muito melhor que eu. Chegou a trabalhar com eles. Mas pouco, é verdade, pois nunca fez viagens distantes. Entretanto, pelo que conhecia, presumia que esses carros ficassem encalhados muitas vezes, principalmente na época das águas. Curioso, quis saber de um velho carreiro como procedia quando seu carro, puxado por oito juntas, atolava.
O experiente carreiro contou-lhe que várias foram as vezes que viu-se nessa situação. Quando o seu carro atolava, a primeira providência era evitar que os bois se alvoroçassem: o pisoteio agravava a situação, o terreno ficava pior e o carro afundava ainda mais. Para não aumentar o nervosismo da boiada, afastava-se, procurava um lugar adequado para sentar-se, fazia o seu cigarro de palha, fumava-o e, somente depois de algum tempo, voltava ao local.
Encontrava a boiada descansada e calma. Então, com idêntica tranqüilidade, reiniciava a lida com voz firme. Sob o seu comando, os bois puxavam num único sentido e, assim, conseguiam sair do atoleiro.
Sem dúvida é uma boa forma de conduzir um carro de boi. Compreendo-a hoje, entretanto, com mais profundidade. Entendo porque meu pai contou-me tantas vezes essa história. Ela serve como paradigma, por ela podemos orientar-nos na condução de muitas coisas que nos acontecem na vida.
Existem, todavia, outras maneiras de se desatolar os carros de boi. Podemos embrutecer com a boiada, chicoteando-a, metendo-lhe o ferrão, usar uma enxada para remover obstáculos, descarregar um pouco o carro aliviando-lhe o peso, e, mesmo, desatrelar as juntas de bois e deixá-las pastando até que se acalmem, se restabeleçam e, posteriormente, voltem ao trabalho.
Da mesma forma, existem várias maneiras de se conduzir uma nação. No transcorrer da história da humanidade já foram experimentadas várias delas. Começamos com aquilo que conhecemos como modo de produção primitivo, passamos pelo escravagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo. No modo de produção capitalista conhecemos o liberalismo econômico, a social-democracia e agora, estamos conhecendo o mais perverso de todos: o neoliberalismo.
Nessa forma neoliberal de conduzir o Estado, o velho carreiro, conhecido de meu pai, se sentiria um extraterrestre, pois não há lugar para a calma, a paciência, a tranquilidade.
*O autor é Doutor em História Social pela USP e professor no CEUD/UFMS