Wilson Valentim Biasotto*
24-nov-96
Quinze de novembro de 1996. A população de Campo Grande vai às urnas para escolher o seu prefeito. Puccinelli e Zeca do PT disputam espaço milímetro por milímetro, voto por voto. Todos sabem que o pleito será dificílimo, mesmo porque Puccinelli não conseguiu unir toda a direita campograndense em torno de seu nome. Resultado final: Zeca perde a eleição por uma diferença de 411 votos.
Concomitante à realização do pleito a polícia fazia a sua parte, garantindo a ordem e, por incrível que possa parecer, prendeu em flagrante, gente comprando voto descaradamente. Incrível porque embora todos saibam que a compra de votos existe - seja através da distribuição de cestas básicas, seja através da doação de remédios, seja por outra forma qualquer e até mesmo com o uso de moeda corrente - o difícil é provar.
Feita a obrigação da polícia resta agora aguardar pela Justiça. De minha parte, como cidadão, ficaria muito feliz se tivesse a certeza de que quem ganhou o pleito o fez sem uso de meios escusos e condenáveis. Mas, confesso, poucas esperanças tenho, pois muitos são os exemplos concretos de que os oportunistas confiam na morosidade da Justiça para garantirem impunidade para suas contravenções e delitos. Receio inclusive que a polícia, cansando-se de fazer cumprir a Lei sem encontrar respaldo na Justiça, acabe se desencorajando e comece a fazer vistas grossas para essas coisas.
Como agravante, que até parece uma ironia do destino, em se confirmando a eleição de Puccinelli, assume na Câmara Federal o seu suplente Marçal Filho, abrindo espaço para ser empossada na Câmara Municipal de Dourados uma candidata reincidente na compra de votos.
Com todo esse imbròghio só me resta inferir que se a Justiça fosse mais exemplar essas coincidências não existiriam. Por via de conseqüência, acabo ficando em dúvida se a reforma mais necessária nesse país é a Reforma Agrária, ou a reforma do Judiciário. Afinal, tudo leva a crer que tem razão Jânio de Freitas quando afirma, em matéria publicada na Folha do último domingo que: “Não há mais nada a ser provado na fraude que decidiu a eleição por apenas 411 votos. Mas a Justiça Eleitoral ainda está por provar a capacidade de fazer justiça por inteiro, e não meia justiça. Ou meia injustiça”.
*O autor é doutor em História Social pela
USP e professor do CEUD/UFMS