Wilson Valentim Biasotto *
Os programas de televisão não me atraem, nem mesmo os filmes. Quem diria? Eu, um freqüentador assíduo do cinema, antes de se transformarem em igrejas, justamente agora, quando existem canais especializados, nem sequer me dou ao trabalho de verificar a programação. Os telejornais ainda os vejo, embora me irritem pela mesmice e parcialidade.
Sobra-me gosto para o futebol. Uma boa partida prende-me a atenção, apesar de que, não havendo renovação nos quadros de narradores, temos que nos consolar com os mesmos de sempre, meio gastos pelo tempo que lhes enfraqueceu a visão. Você viu, por exemplo, que a bola bateu na trave e eles dizem que o goleiro espalmou. Viu que não houve falta e eles insistem em afirmar que o juiz é ruim.
Saudades das transmissões pelo rádio não tenho, alguns narradores iam tão atrasados que quando estavam gritando gol, a partida já havia se reiniciado. Esses locutores foram desmoralizados pelo radinho de pilhas, desde o momento em que o torcedor pôde chegar ao estádio com o seu colado à orelha.
Quanto aos narradores atuais, bem como os comentaristas, muitas vezes ficam vermelhos quando surge o replay. Cada erro que cometem! Convenhamos, não dá vontade de abaixar o volume da tv e ficar apenas vendo as imagens?
Imagens! Sobre elas quero falar desde o princípio, mas acabei rodeando o assunto. Lembranças do Zinho, talvez, no mundial passado. A verdade é que, tendo permanecido mais tempo em frente deste aparelho fantástico que nos permite ver simultaneamente, as mesmas cenas, com a testemunha ocular do fato que está do outro lado do oceano, pude apreciar muitas e diferentes imagens.
Confesso estar impressionado com algumas delas, até mesmo com imagens de comerciais: uma mais bonita e criativa que a outra. A cerveja descendo redondo; a menininha ao telefone, escondida sob a mesa comendo biscoitos, dizendo que todos estão ocupados, procurando-a; os carros deslizando suavemente pelas estradas que vão sendo varridas pelo sopro suave de nuvens encantadoramente simpáticas.
Como essas imagens nos penetram! Como estimulam nossos desejos, embalam os nossos sonhos! Como nos iludem e enganam!
Apesar de tantas, escolhi a minha imagem desta Copa: foi a penalidade máxima que nos levou à derrota contra a Noruega. Narradores se indignaram, dizendo que não houvera a falta, comentaristas só faltaram xingar a senhora mãe do juiz. As repetições do lance levaram o telespectador à conclusão de que fôramos roubados. Somente no dia seguinte, graças à TV sueca, pudemos ver que realmente houve a falta, Junior Baiano puxara o atacante norueguês derrubando-o dentro da área.
E agora, quando se aproximam as eleições no Brasil e a propaganda invade todos os lares eu fico pensando se não seremos todos enganados pelas imagens. Não sei se tomo a cerveja do comercial, se compro o carro, ou xingo o juiz. Não sei se bendigo ou amaldiçôo São Tomé que precisou ver para crer, numa época em que não havia televisão e nem urna eletrônica.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS