Wilson Valentim Biasotto *
14/09/1998
Ao ver o presidente FHC ora ao lado de Maluf, ora ao lado de Covas, em outdoor, fiquei preocupado: não bastasse estarem tentando exterminar com as ideologias, estariam também querendo acabar com os partidos políticos? Como pode alguém, em sã consciência, apoiar ao mesmo tempo, adversários que se opõe tão tenazmente?
Da mesma forma, confesso, não consigo entender como se possa, também ao mesmo tempo, alguém apoiar Bacha e Pedro. Ambos não passam a idéia de que pertencem a partidos antagônicos? Não dão a entender que têm visões administrativas diferentes? Seus respectivos partidos não têm propostas diferenciadas?
Como não encontrasse resposta para essas minhas indagações, passei a formular outras. Se fosse Ciro Gomes, nem falo de Lula, mas Ciro, se ele apoiasse dois candidatos a governador em um mesmo estado, o que a mídia teria feito? Será que não seria acusado, desqualificado, condenado?
Sem resposta ainda dessa vez, olhei para o alto, talvez para descansar o pescoço, cansado com o ato de digitar alguns textos. Deparei-me com um retrato, dependurado no alto da parede. Um belo retrato! Devo-o ao meu irmão que o recuperou, resgatando, com ele, boa parte do passado de nossa família.
Meu avô paterno teria seus vinte e dois, vinte e três anos; meu bisavô, mais de sessenta; ao trisavô, homem robusto, não daria setenta anos, se não soubesse que seria impossível ter concebido seu filho quando tinha apenas dez anos. Minha avó materna também lá esta, com seus dezesseis, dezessete anos.
Recompus mentalmente suas vidas. Quanto trabalho? E que trabalho duro! Levantavam-se com o nascer do sol e só paravam ao entardecer; inclusive minha avó, que abanava o café na roça como qualquer homem, diferenciando-se apenas pela quantidade, e olha lá!
- Trabalhei como vocês! Pensei em voz alta.
Talvez meu trabalho não tenha sido tão pesado, é verdade, mas foi árduo. Acho, sinceramente, que fizemos a nossa parte. Se nossos filhos e netos não gozarem o fruto de nosso trabalho, não nos lamentemos, alguma criança, em algum lugar do mundo, com toda a certeza, usufruir da riqueza que produzimos.
Quanto aos outdoor? Bem, cada família, cada nação tem os seus retratos. O meu eu o penduro à vista, ao alto de minha mesa de trabalho. Ele me inspira trabalho, ética, dignidade.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS