Wilson Valentim Biasotto *
14/09/1998
Com esse provérbio encerrei a crônica publicada semana passada neste jornal., referindo-me a crise financeira que afeta os países dependentes do capital volátil.
Como se não estivesse no Brasil!
Nessas paragens tupiniquins as coisas se passam de outra forma, somente são embalados os filhos bonitos e saudáveis. Quando as coisas dão certo, muitos querem ser o pai da criança, quando se trata de um abacaxi qualquer, porém, a culpa cabe aos fatores externos. O plano real, enquanto fator de estabilização da moeda, por exemplo, é atribuído a FHC e não ao FMI ou ao Clube dos Sete.
Quando se trata da derrocada da bolsa, elevação dos juros, desemprego, empobrecimento da classe média e do estado de miserabilidade de boa parte da população, a culpa e lançada aos países asiáticos ou Rússia: a criança fica sem pai nem mãe, completamente órfã.
No caso da crise atual, mais uma vez, ao que tudo indica, o povo brasileiro pagará a conta. Quer dizer, talvez nem consiga pagar, todavia será forçado a tentar: suará a camisa para pagar apenas os juros, nunca o principal. Ou estou errado?
O economista Celso Furtado, que dentre outras obras publicou a Formação Econômica do Brasil, um clássico para explicar as nossas origens, já advertiu com propriedade que no Brasil se socializa os prejuízos, jamais os lucros. Não será diferente agora. É chegada, afinal, a hora do povo, na hora de pagar a conta, evidentemente!
Em alguns países, tão distantes quanto os que agora levam a culpa pela crise, os ministros, quando falham, quando não conseguem cumprir suas metas de governo, renunciam; empresários, quando as suas empresas não cumprem o papel social que lhes compete, suicidam-se.
Enquanto isso, nessa terra abençoada pelos deuses, os governantes não se afligem, basta-lhes atribuir a culpa a outrem. A grande imprensa por sua vez, especialmente a televisada, incumbe-se do restante: desqualifica as oposições ao mesmo tempo em que passa a idéia de que não haveria outras alternativas.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS