Wilson Valentim Biasotto *
16.05.98
Minha homenagem aos vagabundos
Em 11/12 de maio de 1996 publiquei a crônica que segue abaixo nesse mesmo espaço, exatamente um ano antes do presidente da república chamar de vagabundos aos que se aposentam por volta dos cinqüenta anos. Republica-la parece-me oportuno. Vamos a ela.
Minha memória não me tem sido motivo de orgulho. Compará-la a de alguns amigos nem pensar. O Ramiro, por exemplo, consegue com facilidade repetir a chamada feita no tempo do exército e ir enumerando de 1 a 150 os nomes de nossos colegas de farda, quando servimos. A vida é assim mesmo. Uns são mais dotados para algumas coisas, outros para outras, e existem ainda os que não são dotados para nada. De qualquer forma, todos têm o direito à vida. Não invejo ninguém e se a minha memória não é de elefante, ao menos tenho algumas lembranças que desejo compartilhar com os leitores.
Quando cursei o primário não existiam na minha cidade escolas particulares. Na escola pública sentavam-se, lado-a-lado, filhos de gente das mais variadas origens sociais. Era uma convivência gratificante, aprendíamos a nos respeitar; os ricos tomavam conhecimento da existência dos pobres e estes tinham a expectativa de que, se houvesse esforço, poderiam ascender socialmente. Ah! que tempos! Tempos de sonhos e de ilusões. Sonhos realizados para uns, desfeitos para outros.
Güerino e Stéfano sentavam-se sempre nas primeiras carteiras e vieram-me à lembrança como paradigmas perfeitos para mostrar como uns podem ser bem sucedidos e outros não. Atentos e estudiosos, disputavam, ao menos nos dois primeiros anos escolares, a melhores notas. Depois, Güerino foi decaindo, suas notas eram cada vez mais baixas e só conseguiu o diploma do quarto ano porque colou; quero crer que com a complacência da professora.. Desistiu, abandonou tudo, para ser cortador de cana.
Ao contrário, Stéfano continuou firme em seus estudos, concluiu o primeiro e segundo graus (ginasial e científico, como era chamados na época), seguiu para o Rio de Janeiro e hoje, para encurtar a história, tem dependurada, em frente ao seu consultório, uma bela placa de bronze onde se lê: “Dr. Stéfano: urologista”.
Güerino morreu. Mal tinha completado quarenta e sete. Ironicamente, quarenta e sete anos é a vida média dos cortadores de cana. E ele foi logo morrer com essa idade para confirmar a estatística. Parece que levara uma vida muito desregrada. Levantar cedo, vá lá, era próprio da profissão, mas não precisava ir dormir tarde, e ainda com a cara cheia de cachaça. Ouvi dizer que às 5h00 da manhã, quando encostava no ponto do caminhão que o levava ao canavial, ao invés de dirigir-se ao bar do Abílio para tomar um café com leite, pedia um lavrado de pinga. Dizia aos amigos que era para calibrar.
Morreu sem sequer esperar pela reforma da Previdência que, se aprovada, levará o trabalhador brasileiro a aposentar-se com 65 anos. Puxa! Ainda faltariam dezoito para o Güerino. Não sei porque tem gente, como ele, que escolhe ser cortador de cana e opta por tomar cachaça às cinco da matina.
Um dia, ainda peço ao Ramiro que faça a chamada de nossa turma do exército: só para ver quantos já morreram sem se aposentar, por terem optado por profissões erradas.
O autor e doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS