Wilson Valentim Biasotto *
Dezenove professores de Universidades Federais fazem greve de fome em Brasília. Poderiam ser muito mais não fosse o pedido do Sindicato da categoria [ANDES-SN] solicitar que não houvessem mais adesões.
Que força pode levar um grupo de pessoas bem nutridas a abster-se de comida num país onde milhares de conterrâneos caminham léguas e léguas em busca de uma cesta básica? Que tipo de preocupação pode levar uma pessoa empregada, com salário mensal em torno de mil e duzentos reais, à greve de fome, quando sabemos que milhões de brasileiros trabalhariam dez horas diárias ao longo do mês para ganhar um décimo dessa importância?
Na verdade essa greve de fome dos professores universitários revela muito mais que a mera reivindicação salarial, desnuda para a sociedade internacional uma imagem paradoxal: justamente quando assume a presidência da República um professor universitário, doutor honoris causa em várias partes do mundo, a Universidade brasileira vai sendo pouco a pouco sucateada.
A greve de fome desses professores é, portanto, um ato que dignifica toda a categoria e desperta os nossos brios para a defesa de um dos patrimônios mais importantes que a sociedade brasileira possui: a universidade, pública, gratuita e de boa qualidade.
O lamentável é que a mídia nacional parece estar mais preocupada em mostrar a aliança no dedo direito do Ronaldinho do que essa greve de fome. Não que devamos ser indiferentes à felicidade e paz do melhor jogador do mundo, nele repousam afinal as nossas esperanças de sermos penta campeões mundiais. Mas convenhamos, no Brasil estão em jogo projetos infinitamente superiores ao penta. Está em jogo a própria existência da Universidade Pública.
O que leva, portanto, nossos colegas à greve de forme, como eles próprios afirmam, é “a culminância de um longo processo no qual vimos esgotadas todas as tentativas de estabelecer um efetivo diálogo com os representantes do governo FHC”.
Que triste constatação: na presidência da República um professor universitário, no ministério um ex-reitor e ex-dirigente de uma Associação de Professores. Deveríamos todos, país, alunos, professores, estarmos comemorando uma revitalização jamais vista da Universidade Pública, no entanto a arrogância de nossos dirigentes não lhes permite sequer o diálogo.
Confesso que gostaria de estar junto com os meus colegas, e com eles, dizendo aos meus filhos e a todos os jovens universitários brasileiros: “Privo-me da comida porque me privam da palavra que tem fome de ser. Privo-me da comida porque me tiram a voz, o salário e tentam tirar-me o respeito. Tenho fome de verdade. Tenho fome de saber. Tenho fome de justiça”.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS