Wilson Valentim Biasotto *
21.09.98
A primavera começou um pouco mais cedo em Dourados, no dia 19, último sábado, com a realização do 19º Encontro de Corais no Clube Indaiá, numa promoção da Fundação de Cultura e Esportes do Município.
Adilvo Mazzini, o iniciador e grande responsável pela sobrevivência deste empreendimento deve estar satisfeito, hoje o Encontro de Corais tornou-se um evento obrigatório. Qualquer que seja o prefeito eleito, o diretor da Fundação de Cultura escolhido, o Encontro tem que ser realizado, caso contrário estará se rompendo uma tradição que se tornou sagrada para Dourados. E a ruptura com o sagrado é pura imprudência.
Nove grupos se fizeram presentes, proporcionando mais de três horas de espetáculo, pura enlevação do espírito. Nem a chuva, nem a intromissão do frio, em época que não lhe é reservada, impediram a presença de público. Seiscentos ouvintes, calculo eu, atentos, embevecidos em não raros momentos, acompanharam cada canto, num espetáculo maravilhoso de profundo respeito entre os artistas e os espectadores.
Vários grupos foram aplaudidos de pé, inclusive os dois que representaram Dourados, todavia, confesso, o Coral da Motta, que encerrou o Encontro, arrancou-me um sonoro bravo! Um espetáculo digno de qualquer palco. Arrepiante!
E eu, que nos idos de 1975, 76, viajava toda santa semana pela Viação Motta, fazendo o percurso Dourados/São Paulo e vice-versa, confesso publicamente que perdôo de coração todo o desconforto sofrido em tais viagens, pelos momentos de enlevo que a empresa proporcionou-me através de seu Coral.
Se faço essa confissão não é por nenhuma questão pessoal, mas para chamar a atenção dos empresários de Dourados. Quantas promoções culturais não deixam de ser realizadas aqui por falta de patrocínio financeiro? Quantos estabelecimentos bancários, como lucros significativos nessa região, não poderiam contribuir com eventos dessa natureza?
Será que um banco, uma grande cerealista, uma casa comercial ou uma indústria de Dourados comprometeriam seus respectivos balanços financeiros se, por exemplo, pagassem um jantar a um desses grupos? Se patrocinassem a apresentação de um grupo de teatro, de dança, de música, ou qualquer outra atividade cultural?
Não creio. Ademais, atualmente existem leis que favorecem com descontos de impostos àqueles que incentivam a cultura. Além disso, é muito provável, alguém que cansou as pernas numa fila, olharia com mais benevolência para o banco que através de um patrocínio cultural lhe proporcionou horas agradáveis. E o cliente em geral, tomado de simpatia, com certeza daria preferência àquela firma amiga da cultura!
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS