Wilson Valentim Biasotto *
28.09.98 (não encaminhado ao jornal)
Na minha maneira de entender, num regime democrático, o debate entre os candidatos deveria ser cada vez mais aprimorado para que o eleitor tivesse parâmetros claros para escolher seus representantes.
As redes de televisão poderiam viabilizar um pool de emissoras para transmitir em nível nacional, e em horário nobre, dois ou três debates entre os presidenciáveis. As redes locais, por sua vez, promoveriam também alguns encontros para que os candidatos aos governos estaduais pudessem debater as suas propostas. Num encontro se debateria, por exemplo, finanças públicas, segurança, transportes; noutro educação, saúde, cultura; enfim, abrir-se-iam espaços para que os eleitores pudessem discernir o melhor programa e votar no candidato que lhe convencesse.
Não seria diferente com os candidatos ao senado, cada qual participando, em seu Estado, de debates que esclarecessem ao eleitor suas reais intenções.
Talvez não fosse viável, em cadeia de televisão, o debate entre os candidatos às Câmaras Estaduais e Federal em razão do elevado número de concorrentes. Mesmo assim os debates poderiam ocorrer, nas escolas públicas, entidades de classe, clubes de serviço e até serem transmitidos pelas emissoras de rádio.
Com certeza, essas realizações seriam uma grande vitória da democracia e com ela ganhariam todos os cidadãos brasileiros. No entanto onde estão os debates? Por que os candidatos fogem ao debate? Por estarem melhor colocados nas pesquisas não poderia ser, se assim fosse, se eles estivessem na frente por serem melhores, teriam a oportunidade de ampliar ainda mais a margem de diferença.
A resposta deve ser buscada em outras alternativas. Talvez nem todos os candidatos estejam bem preparados. Quiçá prefiram os comícios, onde podem falar o que quiserem, mesmo que tenham decorado o script. Ou, quem sabe, prefiram a distribuição de cestas básicas, remédios, sacas de cimento, milheiros de tijolos, em troca do voto.
Sem debates, com o instituto da reeleição, com a grande mídia tomando o partido da continuidade ou, no mínimo, não cumprindo o seu papel de fazer um jornalismo investigativo, com boa parte do eleitorado desejando vender o voto e boa parte dos candidatos querendo compra-los, com o próprio ministro do Supremo Tribunal Eleitoral fazendo declarações impróprias ao seu cargo, temo que essas atuais eleições brasileiras não contribuam em absolutamente nada para o aperfeiçoamento democrático.
Ah! as urnas eletrônicas?
Já fui mesário, já fui fiscal de eleições. Alguns votos são praticamente inintelegíveis, têm-se praticamente que adivinhar o número ou nome escrito, para poder computá-lo. Por isso tenho receio que muitos eleitores terão dificuldades em lidar com as urnas eletrônicas. Pior: como poderão levar por escrito os números de seus candidatos o trabalho de boca de urna poderá definir as eleições.
Não falo na confiabilidade do sistema porque, sinceramente, tenho ainda as minhas dúvidas.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS