Wilson Valentim Biasotto *
04/06/1998
Quantas expressões como essa você já ouviu? Ia passando pela sala, a televisão estava ligada, vi uma parte do programa do Ratinho. Estava apertando os botões do controle remoto e pude ver um quadro rápido do programa da Márcia. Estava sem opção de programas quando fiquei horrorizado com uma cena no programa da Madalena.
Às vezes é verdade. Deparamo-nos sem querer com alguns programas de televisão e a eles ficamos presos ao menos por alguns instantes. Mas quantas pessoas no Brasil não estão ligadérrimas nesses programas, por sentirem prazer em assisti-los? Quantas não ficam torcendo e tomando partido?
Por outro lado, e isso é mais entristecedor ainda, não têm faltado protagonistas. Há filas de espera de pessoas sem carta de cidadania aguardando uma oportunidade para exporem as suas mazelas. Esses programas transformaram-se num grande SUS onde, através do desabafo, da exposição de suas chagas os desesperados buscam remédio para suas aflições.
Ratinho, Márcia, Madalena e outros programas congêneres abrem ao povo comum a oportunidade democrática de mostrarem-se iguais aos poderosos desse país. Eles tornam público que também roubam, traem, prostituem-se. Os filhos vingam-se dos pais, os casais desnudam as suas intimidades, vizinhos mostram as suas garras. E todos se agridem verbal e fisicamente até serem subjugados por seguranças agradecidos pela nova possibilidade de emprego num país com tanta desesperança.
E rolam milhões e milhões de reais às custas desses pobres infelizes. Pouco importa se tudo isso causa repugnância à classe média, consternada. Importam as pesquisas. Importa estar na frente, ser melhor.
Na Idade Média não havia televisão, mas as pessoas sabiam quais eram os locais mais visíveis para expor as suas chagas: as praças e as igrejas. Johan Huizinga já demostrou que na Idade Média as coisas na vida tinham uma orgulhosa ou cruel publicidade. “Os leprosos faziam soar os seus guizos e passavam em procissões, os mendigos exibiam pelas igrejas as suas deformidades e misérias”.
A televisão, quem diria, substitui também a praça e a porta da igreja.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS