Wilson Valentim Biasotto *
Amigo me perdoa se não correspondi a sua expectativa de fazer um crônica sobre a vitória das esquerdas imediatamente após a apuração do segundo turno. Ressaca não houve, as comemorações foram poucas; em primeiro lugar porque não se deve exagerar tripudiando os adversários e, em segundo, porque a alegria da vitória logo cedeu lugar ao peso da responsabilidade que cada militante sente. É como se fossemos o próprio Zeca do PT assumindo o governo. Não exagero. É impressionante! Mas isso não vem ao caso neste momento. O que lhe devo, e agora pago, são algumas considerações sobre o assunto.
Não se desconhece que em Mato Grosso do Sul existem, neste momento, três forças eleitorais de grande peso, uma de esquerda e duas de direita. Embora esse equilíbrio se manifeste também em nível nacional, o que se verificou é que no âmbito geral a direita uniu-se em torno da figura de FHC, ao contrário daqui, onde o antagonismo das duas forças de direita lançou uma delas para a esquerda.
Essa constatação inicial nos leva a inferir que haverá nos dois próximos anos um esforço concentrado dos três grupos na busca da hegemonia. Essa luta por espaço poderá implicar num realinhamento de forças. Num primeiro momento a direita deverá resistir a uma união (haja vista que alguns políticos já se reacomodam em novas siglas partidárias para a disputa em 2000). Isso porque a direita ainda se sente forte o suficiente para tentar dar a volta por cima, procurando, cada facção por si, tornar-se mais poderosa que a esquerda. Esta, por sua vez, torna-se uma espécie de fiel da balança: sua boa atuação administrativa poderá atrair em definitivo muitos eleitores que por ora votaram em Zeca unicamente por rejeição a Bacha. Se, entretanto, a esquerda aumentar muito a sua força provocará a união da direita, se se enfraquece, pouco que seja, não chega a mais nenhum segundo turno. A única conclusão no momento é que parece não haver espaço para o radicalismo, seja de extrema direita ou extrema esquerda.
Mas como não ser radical se o povo anseia por mudanças?
Na verdade a questão não encerra nenhum paradoxo. As mudanças desejadas pela população não são de ordem ideológica, mas de ordem ética e moral. Por via de conseqüência não nos iludamos com a possibilidade de realizações utópicas, estamos dando apenas o primeiro passo de uma longa caminhada.
De qualquer forma será um grande passo! A nossa carta de cidadania nos será devolvida. Os comerciantes preferirão pagar seus impostos. Os professores acreditarão novamente na educação como principio básico para a liberdade. Os trabalhadores em geral haverão de se sentir dignificados à medida que o suor de seu trabalho for revertido para a edificação do social. Todos nós, afinal, sentir-nos-emos honrados em poder “cobrar” do governo, porque não lhe demos nossos votos em troca de vinte moedas, mas em troca de um programa.
Muito mais haveria para ser dito, limitado todavia pelo espaço que se dispões para uma crônica, desejo concluir manifestando outra alegria: tenho ouvido muita gente (do comércio, das profissões liberais, da roça, dos professores, etc.) e noto que ninguém está esperando milagres, e sim mais respeito no trato da coisa pública.
As demais medidas do governo, especialmente nas áreas da saúde e da educação virão como que por acréscimo.
O autor é doutor em História Social
pela USP e diretor do CEUD/UFMS